Justiça

Lista de boicote a eleitores de Lula explode em MG: “Isso é crime”, diz comerciante

Lista de boicote a comércios de eleitores de Lula circula no WhatsApp em Poços de Caldas MG
Print de mensagem no WhatsApp com lista de estabelecimentos alvos de boicote político em Minas Gerais.

Uma lista com dezenas de comércios circulou pelo WhatsApp em Poços de Caldas (MG) pedindo boicote a estabelecimentos cujos donos votaram em Lula. A mensagem conclamava “patriotas” a não comprarem em “comércios petistas” e incentivava a ampliar a relação. O episódio reacende o debate sobre perseguição política no ambiente de negócios — e pode render processo criminal.

Comerciantes incluídos na relação reagiram com indignação e ameaças de ação judicial. A Polícia Civil já recebeu denúncia formal de vereadores do PT. Mas o que transforma uma lista de WhatsApp em crime? E qual o impacto real para quem vive do comércio local?

O que diz a lei sobre listas de boicote político

O Código Penal prevê o crime de perseguição (art. 147-A) quando há campanha reiterada que ameace a integridade física ou psicológica, invada a privacidade ou perturbe a liberdade da vítima. A pena varia de seis meses a dois anos de reclusão, mais multa.

No caso de Poços de Caldas, a lista não apenas expõe nomes — ela convoca a retaliação econômica organizada. Para juristas, o caráter coletivo e a incitação ao boicote configuram os elementos do tipo penal.

Reação imediata: do medo à contraofensiva

Gustavo Pupila, comerciante citado na lista, foi às redes sociais classificar a ação como “crime” e “coisa feia”. Prometeu identificar os autores: “Esses criminosos vão pagar. Não aceitaram perder e estão querendo mexer com a minha vida. Eu vou mexer com a sua vida, agora.”

Outra comerciante, que preferiu não se identificar, relatou situação idêntica em 2022, quando Bolsonaro foi derrotado. “Naquela eleição foi difícil, tive medo, cheguei a ser hostilizada. Mas dura pouco. O que vejo hoje é que esse tipo de agressão mais une a gente do que desune.”

Um terceiro empresário, com décadas na cidade, confirmou o padrão: perdeu movimento temporariamente em 2022, mas a clientela voltou. Relatou, porém, agressividade extrapolando o comércio — foi expulso da academia que frequentava ao confrontar a dona sobre fake news.

O retrato eleitoral da cidade explica a tensão

Poços de Caldas tem 173 mil habitantes e 90,5 mil votos no segundo turno. Diferente de Minas Gerais — onde Lula venceu por 50,4% a 49,6% —, a cidade deu 55,8% a Bolsonaro e 44,2% a Lula. A margem de 11,6 pontos percentuais cria ambiente majoritário favorável a discursos de retaliação.

  • População: 173 mil habitantes
  • Votos no 2º turno: 90,5 mil
  • Bolsonaro (PL): 55,8%
  • Lula (PT): 44,2%

Vereadores levam caso à Polícia Civil

Tiago Mafra e Diney Lenon, vereadores do PT eleitos em 2024, formalizaram denúncia. Lenon comparou a prática à marcação de comércios judeus na Alemanha nazista: “Além de inadmissível moralmente, é crime. Esse tipo de prática é idêntico à dos nazistas. Não vamos aceitar.”

A Associação de Comerciantes de Poços de Caldas, procurada pela reportagem, não se manifestou — o presidente Marcelo Bertolucci disse apenas estar ocupado.

Assédio eleitoral no trabalho também é crime

O Ministério do Trabalho e Emprego mantém canal específico para denúncias de assédio eleitoral no ambiente profissional. Demitir ou perseguir funcionários por escolha política configura crime. Trabalhadores e testemunhas podem registrar a ocorrência diretamente na plataforma do governo federal.

O que observar nas próximas semanas

A investigação policial dirá se a lista configura crime de perseguição ou se enquadra em outras tipificações — como incitação ao crime ou dano moral coletivo. O desfecho pode criar precedente para casos semelhantes em outras cidades.

Para empresários, a lição prática: documentar tudo. Prints de tela, testemunhas, registro de boletim de ocorrência e comunicação formal às plataformas digitais fortalecem eventuais ações civis e penais. O prejuízo econômico comprovado — queda de faturamento, cancelamento de contratos — vira prova material.

Comerciantes ouvidos pela reportagem convergem num ponto: o movimento costuma ser ruidoso, mas efêmero. A clientela fiel retorna. Ainda assim, o custo emocional e o risco de escalada para violência física mantêm a cidade em alerta.