Tecnologia

Itaú gasta R$ 3 bi para virar o “ChatGPT dos bancos”; entenda o lance

Logotipo do Itaú Unibanco sobre fundo tecnológico com elementos de inteligência artificial e símbolos financeiros
Itaú investe R$ 3 bi na NeoSpace para criar seu "ChatGPT financeiro" proprietário

O Itaú acaba de desembolsar quase R$ 3 bilhões pela NeoSpace, startup de modelos fundacionais de IA fundada pelo mesmo criador da Zup, comprada pelo banco em 2019. A meta declarada é transformar a instituição em um “ChatGPT financeiro” proprietário. O movimento sinaliza que a disputa pelo cliente não será mais por taxas, mas por quem detém a melhor inteligência artificial.

O valor chama a atenção: representa um múltiplo de cerca de 10 vezes a receita estimada da startup para 2025 (R$ 300 milhões). Em janeiro, o banco já havia entrado como minoritário com US$ 15 milhões a um valuation de US$ 100 milhões. A alta de 6x em meses mostra o prêmio estratégico de internalizar a tecnologia.

Por que não basta usar o ChatGPT ou Gemini?

Segundo o CIO Ricardo Guerra, modelos generalistas já atendem dúvidas financeiras básicas. O diferencial do Itaú, porém, é o acervo de dados comportamentais de 100 anos de operação. O banco sabe o que o cliente compra, como gasta, investe e pega emprestado — informações que não existem na internet pública.

Essa base permite treinar um modelo especialista, não generalista. A promessa é substituir menus de aplicativo por conversas naturais que resolvam desde portabilidade de dívida até planejamento de aposentadoria.

O motor “ia.i” e a lacuna de conhecimento

Lançado em junho, o ia.i já funciona como chat no app, mas ainda não conhece todo o portfólio nem todo o histórico do cliente. Guerra admite: muito do conhecimento está na cabeça de gerentes e especialistas. Transformar isso em dado digital é o gargalo atual.

A NeoSpace entra exatamente aqui. Com 80 pesquisadores focados em arquitetura de redes neurais, a startup acelera a “digitalização do saber” do banco e melhora duas frentes críticas: modelagem de crédito e prevenção a fraudes.

O fator Bruno Pierobon: empreendedor serial interno

Há um detalhe raro: o fundador da NeoSpace, Bruno Pierobon, vendeu a Zup ao Itaú em 2019, trabalhou anos no banco e saiu para fundar a nova venture. Ele recusou uma rodada de US$ 250 milhões com fundos internacionais (valuation superior) para vender ao Itaú.

O motivo? Autonomia para pesquisar IA de fronteira impactando milhões, sem a pressão de expansão global. Os anjos da NeoSpace — nomes como Martín Escobari (General Atlantic) e Micky Malka (Ribbit) — também saem no negócio.

O que muda para o mercado e para o seu bolso

  • Fim da dependência de Big Techs: O banco não quer alugar modelo; quer ser o dono do “cérebro”.
  • Interface conversacional: Apps bancários tendem a virar assistentes de voz/texto nos próximos 18-24 meses.
  • Crédito mais preciso: Modelos próprios reduzem inadimplência e liberam limites personalizados em tempo real.
  • Barreira de entrada: Concorrentes sem dados próprios de 100 anos terão dificuldade de replicar a profundidade.

O que observar daqui para frente

A integração da equipe de 80 pesquisadores à estrutura do banco será o termômetro real. Se a cultura de “lab” da NeoSpace sobreviver à burocracia de um gigante de 100 mil funcionários, o Itaú pode ditar o padrão de IA bancária na América Latina. Caso contrário, vira apenas mais um aquihire caro. Acompanhe a evolução do ia.i: a velocidade com que ele passa a resolver produtos complexos (consórcio, câmbio, investimentos estruturados) dirá se a aposta de R$ 3 bi foi visão ou desespero.