Economia

Reforma tributária: por que as big techs correm contra o relógio (e o que falta para 2027)

Relógio digital marcando 2027 com símbolos de tributos CBS e IBS sobre fundo de código de programação
Big techs correm para adaptar sistemas antes da reforma tributária de 2027 sem especificações do split payment.

Empresas de tecnologia travam uma corrida silenciosa para adaptar ERPs e sistemas fiscais antes de janeiro de 2027, mas o governo ainda não entregou as especificações técnicas do split payment — o mecanismo que separa tributos automaticamente no pagamento. Sem essa integração, desenvolvedores não conseguem conectar o software das empresas ao Fisco.

O atraso expõe um risco real: a apuração dos novos tributos (CBS e IBS) pode começar no modo manual, aumentando erros e custos operacionais para contadores e gestores financeiros.

O gargalo que ninguém resolveu

Edgar Serrano, CEO da DBC Company e diretor da TiRS, resume o impasse em uma frase: “Como vamos conectar sistemas em algo que ainda não existe?” O comitê gestor da reforma não liberou os ambientes de testes nem a documentação final das APIs que receberão os dados do split payment.

Na prática, isso significa que fornecedores de software — TOTVS, CIGAM, DBC e outros — estão desenvolvendo no escuro. A margem ideal para desenvolver, testar, homologar e treinar equipes seria de 12 meses. Restam menos que isso.

Como a TOTVS tenta contornar a incerteza

Luciana Santos, gerente de Portfólio de Produtos Fiscais da TOTVS, revela a estratégia adotada: configuração flexível. O sistema sai de fábrica preparado para o modelo atual, mas permite ativar o split payment em lote com poucos cliques assim que o Fisco liberar o portal de apuração assistida.

A abordagem atende a dois perfis de clientes que coexistem hoje:

  • Adiantados: já revisaram cadastros (NCM, CST, CFOP), mapearam integrações com e-commerce e marketplaces e negociaram prazos com fornecedores.
  • Parados: desconhecem o impacto da reforma nos seus processos e correm risco de não conformidade no dia 1º de janeiro.

“A tecnologia é o meio, mas o esforço é humano: fiscal, financeiro, comercial, jurídico e TI precisam atuar juntos”, alerta Luciana.

O que está em jogo para o seu negócio

A reforma não é apenas uma atualização de versão. Ela exige:

  • Revisão completa de cadastros de produtos e serviços.
  • Readequação de processos de emissão, recebimento e escrituração de notas.
  • Testes de ponta a ponta com o ambiente do governo (ainda indisponível).
  • Alinhamento contratual com fornecedores e clientes sobre quem recolhe o quê no split payment.

Empresas que deixarem para o último trimestre de 2026 enfrentarão fila de suporte, erros de validação e multas por entrega fora do prazo.

Cenários para os próximos meses

Dois desfechos são possíveis, e ambos exigem preparação antecipada:

  • Governo entrega APIs a tempo: quem já testou em homologação entra em produção no dia 1º/01/2027 sem sobressaltos.
  • Atraso persiste: apuração manual nos primeiros meses (com retrabalho garantido) ou adiamento oficial do cronograma — hipótese que Serrano considera provável.

O Fórum Reforma Tributária, marcado para 10 de novembro no Instituto Caldeira (Porto Alegre), reunirá Serrano, Luciana Santos e Rodrigo Strassburger (CIGAM) no painel “Sistemas sob pressão” para detalhar esses caminhos. A programação inclui ainda debates sobre impactos na economia gaúcha e decisões urgentes para 2025.

O que observar daqui para frente

Monitore três sinais concretos nas próximas semanas: publicação das especificações técnicas do split payment, abertura do ambiente de homologação pelo comitê gestor e divulgação das alíquotas de referência da CBS e do IBS. Cada um desses marcos reduz a janela de incerteza — e quem já iniciou a adequação ganha tempo de teste enquanto os concorrentes correm atrás do prejuízo.