O Canadá e os Emirados Árabes Unidos assinaram nesta terça-feira (28) um acordo de parceria econômica abrangente (Cepa) que elimina tarifas sobre virtualmente todas as exportações canadenses. O movimento é a resposta direta de Ottawa à instabilidade comercial com Washington. Mas o que isso muda, na prática, para o bolso do investidor brasileiro?
O fato: porta aberta para o Golfo
O primeiro-ministro Mark Carney e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, xeique Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, formalizaram o tratado em Ottawa. A meta é clara: reduzir a dependência do mercado americano, hoje destino de cerca de 75% das exportações canadenses.
Quando entrar em vigor, prevista para 2027, o acordo zerará ou cortará tarifas sobre mais de 99% dos produtos que o Canadá vende aos Emirados. O comércio bilateral já moveu 3,5 bilhões de dólares canadenses (US$ 2,48 bi) no ano passado, crescendo 10% ao ano.
Impacto direto: onde o dinheiro vai circular
Não é apenas papel. O gabinete de Carney detalhou os setores que ganham acesso preferencial imediato. A lista revela onde a competitividade canadense encontra demanda em Abu Dhabi e Dubai:
- Agronegócio: leguminosas e canola (carro-chefe das exportações).
- Indústria pesada: máquinas industriais e equipamentos de geração de energia.
- Alta tecnologia: setor aeroespacial e inovação industrial.
- Recursos naturais: madeira, pescado, frutos do mar e serviços de engenharia ambiental.
Além de tarifas, o texto ataca barreiras não tarifárias — burocracia, padrões técnicos e processos alfandegários — criando previsibilidade jurídica para quem opera nos dois corredores.
O movimento geopolítico por trás da assinatura
Carney prometeu dobrar o número de parceiros comerciais do Canadá na próxima década. A tentativa de aparar arestas com a Casa Branca de Donald Trump falhou, forçando uma guinada agressiva para Ásia-Pacífico, Europa e Oriente Médio.
Os Emirados não são um alvo aleatório. Eles são o maior mercado do Oriente Médio para o Canadá e grandes compradores de veículos, autopeças e máquinas. A assinatura do Cepa é a etapa final antes da ratificação pelo Parlamento canadense.
O cheque de US$ 50 bilhões que ninguém ignora
O comércio é apenas metade da equação. No ano passado, os Emirados se comprometeram a investir até US$ 50 bilhões no Canadá. O ministro do Comércio Exterior emiratense, Thani Al Zeyoudi, foi direto ao apontar os alvos: logística, comunicações, tecnologia avançada e manufatura.
Para o investidor global, isso sinaliza fluxo de capital soberano em infraestrutura e inovação canadense — ativos que tendem a se valorizar com a redução do risco país decorrente da diversificação de mercados.
O que observar daqui para frente
A ratificação no Parlamento canadense é o próximo gatilho de curto prazo. Acompanhe também a implementação das regras de origem: elas definirão se produtos com componentes de terceiros países (como o Brasil) conseguem “carregar” o benefício tarifário via Canadá.
Outro ponto crítico é a sinergia com o setor de energia. Acordos preliminares de cooperação em energia e defesa foram assinados em paralelo. Se o Canadá conseguir exportar GNL e tecnologia limpa para o Golfo em escala, a balança comercial pode inverter o déficit histórico muito antes de 2030.
