A Herdade do Rocim acaba de provar que um único produtor pode ditar o ritmo de Portugal inteiro: são oito regiões vinícolas sob o mesmo guarda-chuva, da Bairrada aos Açores. O enólogo Pedro Ribeiro desembarcou em São Paulo com oito garrafas que resumem essa amplitude — e uma delas custa R$ 339, estampa um yorkshire de gravata e divide opiniões antes mesmo de a rolha sair.
A degustação, restrita a convidados nas lojas World Wine, serviu de vitrine para um portfólio que começou no “apocalíptico” ano 2000, no Baixo Alentejo. Hoje, a tropa alentejana sozinha soma 35 rótulos. Mas o segredo não está no volume; está na precisão cirúrgica com que a Rocim traduz terroirs tão díspares quanto o Douro, o Dão, Lisboa, Vinho Verde, Algarve, Bairrada e as ilhas.
O “Dr. Bruno” e a aposta no humor de luxo
O clarete Dr. Bruno 2023 (Bairrada, 100% Baga) é o assunto da vez. O rótulo carrega Bruno Aleixo, personagem de humor mórbido criado por João Moreira, Pedro Santo e João Pombeiro — 50% do público ama, 50% odeia, segundo Ribeiro. Ele abraçou a polêmica: “Fizemos um vinho alegre, descontraído, mas com precisão e frescor”.
Na taça, taninos suaves e acidez vibrante pedem carnes brancas assadas ou massas ao molho vermelho, mas a ficha técnica garante que bebe-se bem sozinho. A nota oficial do produtor resume o tom: “É super bom — e toda gente a quem dei a provar também achou super bom”. O preço, porém, não ri: R$ 339,00.
O rei do custo-benefício nasce pisado a pé
Se o critério for entrega por real, o Rocim Alicante Bouschet 2024 (Vidigueira, Alentejo) leva a coroa. Sedoso, envolvente, com frutas vermelhas e pretas maduras mais um toque mentolado, custa R$ 269,00. Ribeiro revelou o bastidor: “80 a 90% dos topos de gama do Alentejo ou são monovarietais de Alicante ou levam Alicante na composição”.
A uva é rara: tem cor na película e na polpa, garantindo concentração e longevidade naturais. A extração foi feita a pé — literalmente —, mas com “parcimônia” para não exagerar no tanino. “O pé humano faz uma extração eficiente e suave ao mesmo tempo”, explicou o enólogo.
Algarve: acidez vertical no lugar de potência
O contraponto perfeito veio do sul. O Rocim Quinta da Pedragosa Tinto 2023 (Lagos, Algarve) mistura 60% Negra Mole — casta emblemática da região — com Aragonez. Estagiou três meses em cimento e mais um ano em barrica. Resultado: vinho “seco, bem acentuado, mais vertical, não tão comercial”, nas palavras de Ribeiro. Pense em Inspetor Javert encontrando Jean Valjean: tensão e redenção na mesma taça. Também R$ 269,00.
O restante da linha em números
- Quinta da Pedragosa Branco 2024 (Arinto + Malvasia, Algarve) — untuoso, cítrico, tropical — R$ 269,00
- Rocim Verdelho 2025 (100% Verdelho, Vidigueira, sem carvalho) — frescor e leveza — R$ 269,00
- Rocim Touriga (100% Touriga Nacional, Vidigueira, 8 meses em carvalho francês) — morango, cereja, pedra úmida — R$ 269,00
- Bela Luz 2024 Tinto e Branco (Douro, vinhas velhas centenárias, field blend de castas não contabilizadas) — “perto da perfeição” — R$ 498,00 cada
Argentina de altitude entra no radar paulistano
Enquanto Portugal brilha na World Wine, a sommelière argentina Paz Levinson arma o Argentina Reloaded nos dias 27 e 28 de outubro. O foco: diversidade de terroirs, incluindo a ainda obscura Quebrada de Humahuaca, em Jujuy (extremo norte, vinhas de altitude extrema). “Oportunidade pouco habitual de conhecer o potencial da região como um todo”, definiu Paz.
Duas paradas em São Paulo:
- 27/10 (terça), 20h–23h: Jantar harmonizado no restaurante Cora (Rua Amaral Gurgel, 344, 6º andar, Vila Buarque).
- 28/10 (quarta), 19h–22h: Degustação livre no “Tão Longe, Tão Perto” (Rua Dr. Sérgio Meira, 7, Barra Funda). Entrada R$ 50; taças avulsas a R$ 15.
O que observar daqui para frente
A Rocim consolida o Alentejo como motor de inovação técnica (pisa a pé controlada, cement eggs, monovarietais de Alicante) enquanto usa o humor como porta de entrada para consumidores mais jovens — estratégia de risco calculado. No Algarve, a Negra Mole ganha tração como “nova” casta de identidade atlântica, vertical e gastronômica. Já o movimento argentino de altitude (Jujuy/Salta) deve pressionar preços de entrada no Brasil nos próximos 12 meses, à medida que importadores testam rótulos fora do eixo Mendoza. Para o profissional de negócios: mapeie distribuidores que já carregam Bela Luz e Dr. Bruno; são termômetros de como o varejo de alto giro absorve narrativas non-convencionais.
