O governo Trump pediu à Justiça a revisão de licenças para três grandes parques eólicos no litoral dos EUA, jogando uma sombra imediata sobre o acordo bipartidário de licenciamento que tramita no Congresso. A ofensiva contraria sinais recentes de que a Casa Branca abrandaria a oposição a renováveis para garantir votos democratas.
As petições miram o Revolution Wind (Ørsted), o Maryland Offshore Wind (US Wind) e o New England Wind (Avangrid). Juntos, somam gigawatts de capacidade prevista — e o Revolution Wind já deveria operar comercialmente em 2026.
O acordo que parecia fechado
No fim de setembro, senadores de ambos os partidos apresentaram o Bipartisan American Affordability and Jobs Act. O texto acelera aprovações de infraestrutura e impede que presidentes futuros bloqueiem empreendimentos por motivos ideológicos. Democratas interpretaram o momento como sinal de trégua na guerra contra a eólica offshore.
“É difícil interpretar isso como algo que não seja negativo para o projeto de lei”, resumiu John Miller, analista da TD Cowen. “Os democratas tinham a impressão de que havia um acordo informal.”
Três projetos, um padrão
- Revolution Wind (Østred): capacidade total prevista para fim de 2026; petição protocolada em 9 de outubro.
- Maryland Offshore Wind (US Wind): ainda não iniciou construção; petição em 13 de outubro.
- New England Wind (Avangrid): também em fase pré-construção; petição em 20 de outubro.
As ações foram apresentadas no bojo de processos movidos por opositores locais — Green Oceans (Rhode Island), cidade de Ocean City (Maryland) e ACK for Whales (Nantucket). O Departamento de Justiça argumenta que o governo Biden não avaliou impactos sobre vida marinha, pesca e paisagem costeira.
Histórico de idas e vindas
Não é a primeira vez que a Casa Branca muda de rota. Em abril de 2024, o governo suspendeu o Empire Wind (Equinor, costa de Nova York) e recuou um mês depois, após negociação com a governadora Kathy Hochul — que cedeu avanço a um gasoduto de gás natural. Meses depois, bloqueou o mesmo projeto e mais quatro, citando segurança nacional; a Justiça derrubou o veto.
Em 2023, o Pentágono atrasou centenas de projetos eólicos terrestres alegando interferência em radares. Após ordem judicial, liberou dezenas e prometeu melhorar o tratamento a renováveis — tudo, segundo fontes do setor, para angariar apoio ao mesmo projeto de licenciamento agora ameaçado.
45 gigawatts parados: a conta do impasse
Cerca de 45 GW de capacidade eólica encontram-se paralisados por decisões administrativas. Jason Grumet, presidente da American Clean Power Association, avisou: o governo precisa respeitar “a substância e o espírito da legislação” se quiser aprovar a reforma.
Na quinta-feira (22), a Casa Branca autorizou dois projetos eólicos terrestres — gesto saudado pelo senador Martin Heinrich, copatrocinador do projeto. Mas ele completou: “há centenas de projetos parados que eu gostaria de ver avançar”. Horas depois, a Casa Branca publicou proclamação classificando a eólica como “riscos únicos à segurança nacional” e determinou ao Departamento de Comércio limitar importações de turbinas e componentes.
Prazos judiciais ou pressão política?
Um funcionário da Casa Branca alegou que as petições apenas respondem a prazos processuais herdados do governo Biden. Críticos discordam. O governo pediu prorrogações nos três casos — inclusive em setembro — e protocolou os questionamentos logo após a apresentação do projeto de lei.
“É altamente improvável que todos esses casos tivessem prazos que permitissem a apresentação justamente nesse momento”, afirmou Tony Irish, ex-advogado do Departamento do Interior. Para fontes do setor, a leitura é clara: os pedidos funcionam como instrumento de pressão.
“Em vez de tentar comprovar sua boa-fé, o governo está elevando o nível de ameaça sobre o que acontecerá se a legislação não for aprovada”, disse um executivo sob condição de anonimato.
O que observar daqui pra frente
O destino do Bipartisan American Affordability and Jobs Act tornou-se teste de credibilidade. Se os democratas retirarem apoio, a reforma de licenciamento — considerada essencial para destravar não só eólica, mas transmissão, solar, nuclear e mineração — pode naufragar. Enquanto isso, 45 GW de energia limpa seguem no papel, e a indústria monitora se a Casa Branca usará a proclamação de “segurança nacional” para ampliar restrições a componentes importados, encarecendo toda a cadeia.
