Economia

BC: Sistema segura, mas famílias batem recorde de endividamento em 21 anos

Gráfico mostra recorde de endividamento das famílias brasileiras em 21 anos segundo Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central 2026
Banco Central aponta maior comprometimento de renda com dívidas desde 2005, embora sistema financeiro permaneça estável.

O Banco Central garantiu que a estabilidade financeira do país não corre risco relevante, mas expôs um cenário delicado para o bolso das famílias: o comprometimento da renda com dívidas atingiu o maior patamar desde 2005. O alerta está no Relatório de Estabilidade Financeira do primeiro semestre de 2026, divulgado nesta terça-feira (27).

A instituição mantém o diagnóstico de resiliência dos bancos, mas admite que a pressão sobre o consumidor deve persistir até dezembro. O que isso significa, na prática, para quem concede crédito e para quem toma emprestado?

O retrato do endividamento familiar

Os ativos problemáticos — operações com atraso ou sinais de dificuldade de pagamento — subiram para o nível mais alto em 14 anos na maioria das linhas de crédito. A inadimplência foi o motor principal dessa alta.

Outro marco histórico: o percentual da renda das famílias destinado ao serviço da dívida chegou a 29,8%, recorde da série iniciada há 21 anos. Em 2025, esse indicador estava em 27,3%.

  • Ativos problemáticos: maior nível desde 2012
  • Comprometimento de renda: 29,8% (recorde de 21 anos)
  • Projeção: pressão continua no 2º semestre

Por que os bancos continuam tranquilos

Apesar do quadro das famílias, o BC reforça que o Sistema Financeiro Nacional tem capitalização e liquidez confortáveis. Os testes de estresse mostram capacidade de absorver choques adversos sem quebrar.

As provisões para perdas esperadas estão alinhadas à realidade atual. Em paralelo, as instituições já desaceleraram a concessão de crédito — tanto para pessoas físicas quanto jurídicas — em resposta aos juros altos e à atividade mais fraca.

Mas o efeito mais relevante aparece no comportamento dos gestores de risco.

O que pensam os donos do dinheiro

Pesquisa do próprio BC com instituições financeiras revelou que 73% delas se dizem “muito” ou “totalmente” confiantes na resiliência do sistema. A confiança existe, porém vem com ressalvas.

As duas maiores preocupações declaradas:

  • Risco fiscal
  • Inadimplência prolongada com juros elevados por mais tempo

Essa cautela já se reflete na seletividade na hora de aprovar novos empréstimos, especialmente nos segmentos de maior risco.

Medidas em estudo para conter o superendividamento

O Banco Central confirmou que analisa ações focadas nos nichos mais vulneráveis. O objetivo é reduzir situações de superendividamento e tornar o crédito mais sustentável no médio prazo.

Não há cronograma público para anúncios, mas a sinalização indica endurecimento de critérios ou incentivos à renegociação antes que o quadro piore.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o ritmo dos próximos meses: a trajetória da Selic, o comportamento do mercado de trabalho e a execução do arcabouço fiscal. Se o emprego segurarem a renda, o pico de inadimplência pode ser administrado sem contágio sistêmico. Caso contrário, a seletividade dos bancos tende a aumentar, encarecendo e restringindo o acesso a crédito justamente para quem mais precisa.

Para empresários e investidores, o recado é claro: o sistema aguenta o tranco, mas a ponta do consumo está esticada. Planeje fluxo de caixa e estratégias de cobrança considerando um cenário de inadimplência elevada até o fim do ano.