Rob Citrone, lendário gestor da Discovery Capital, ignorou o tombo de quase 14% do Ibovespa nesta segunda (26) e fez o contrário da manada: comprou. O “Tiger Cub” — discípulo de Julian Robertson — classificou a reação como exagerada e colocou dinheiro novo no país, mas avisou: a aposta grande depende do primeiro movimento do novo governo.
O fundo, que gere US$ 4,8 bilhões, tem no Nubank sua principal convicção tática. Citrone projeta o dólar justo em R$ 5,25 e o índice acionário em 185 mil pontos. Hoje, a moeda americana fecha a R$ 5,41 e a Bolsa, aos 176,6 mil pontos. A distância até lá explica a oportunidade — e o risco.
Por que o mercado errou a mão
Citrone admite: sua base de cenário era vitória de Jair Bolsonaro (PL). Pesquisas de sexta-feira (23) apontavam vantagem do atual presidente, e o fundo carregava apenas 40% da exposição planejada ao Brasil. O resultado das urnas pegou o gestor — e a Faria Lima — no contrapé.
O choque disparou uma venda generalizada, sem discriminar fundamentos. “Vemos uma recuperação depois do excesso de vendas”, resume. A tese é simples: o pânico precificou um cenário catastrófico que ainda não se materializou na caneta.
O “se” que move os próximos passos
O gestor desenha dois caminhos claros para os próximos meses:
- Cenário construtivo: Nomes de peso na Fazenda e Casa Civil → ganho de credibilidade → queda do prêmio de risco → juros menores → dólar mais fraco → exposição estratégica aumenta.
- Cenário adverso: Ausência de sinalização fiscal clara → recuperação técnica se esgota → fundo reduz posição gradativamente.
“No fim das contas, vocês precisam de uma boa política econômica”, resume Citrone, que já visitou o Brasil 68 vezes.
Nomes na mesa e o sinal para o Copom
O investidor elogia a eventual indicação de Rafael Fonteles (governador do Piauí) ou Geraldo Alckmin (vice-presidente) para a Fazenda. Fonteles, diz, “não é economista, mas é um matemático muito bom”. Para Alckmin, a chave seria quem ocuparia a Casa Civil ao lado.
Na leitura de Citrone, o Banco Central fará uma pausa no ciclo de corte da Selic (hoje em 13,75%) até enxergar a direção da política fiscal. Se o governo entregar âncora crível, o ciclo retoma. Se não, o afrouxamento monetário termina aqui.
Juros nos EUA e a variável Trump
Do lado externo, o gestor projeta mais uma alta do Fed em dezembro, levando a taxa americana a 4%-4,25%. Acredita ser o pico do ciclo — exceto se a crise no Oriente Médio pressionar energia. Dólar forte, porém, não invalida a tese Brasil se houver dever de casa fiscal.
Sobre a relação bilateral, Citrone minimiza ruídos: “Não há razão para Trump e Lula não se darem bem. Ele gosta de conversar com líderes”. Para o gestor, uma reaproximação pragmática está no radar.
O que observar daqui para frente
Três gatilhos ditam o ritmo nos próximos 30 dias: (1) anúncio da equipe econômica — prioridade absoluta; (2) primeira sinalização concreta de meta de resultado primário; (3) ata do Copom de novembro, que revelará se o BC já precifica deterioração fiscal. Quem lê o fluxo, não o ruído, sabe: o prêmio de risco brasileiro está à venda. A pergunta é se o governo vai honrar o cupom.
