O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou em dúvida a lisura do segundo turno brasileiro ao classificar a prorrogação da votação como “muito estranha” e sugerir que o pleito “pareceu fraudado”. A fala ocorreu poucas horas após a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva com mais de 64 milhões de votos.
O vice-presidente Geraldo Alckmin não deixou a declaração sem resposta. Em entrevista, chamou a opinião do líder americano de “equivocada” e reforçou a regra de não interferência na soberania alheia. Mas o episódio vai além da troca diplomática: expõe uma tensão comercial latente que pode afetar a balança de pagamentos nos próximos meses.
O gatilho: horário estendido e a narrativa da fraude
A extensão do horário até as 19h foi decidida pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, após relatos de restrições no transporte coletivo em diversas capitais. A medida, prevista em lei para situações excepcionais, foi usada pela campanha do senador Flávio Bolsonaro — derrotado com 59,8 milhões de votos — para questionar a transparência do processo.
Trump ecoou esse argumento sem apresentar provas. “Acho que pareceu ruim a eleição, o jeito que foi organizado”, disse a jornalistas. Em seguida, minimizou o próprio peso político: “Eu não governo o Brasil, eu governo os Estados Unidos”.
Resposta técnica e recado comercial
Alckmin adotou dois vetores na réplica. Primeiro, defendeu a urna eletrônica como referência global de segurança jurídica. “Democracia você ganha eleição, você perde. É o povo que decide”, afirmou.
Segundo, virou a chave para a economia. O vice destacou que o Brasil já colhe resultados de acordos firmados fora do eixo Washington:
- Mercosul–Singapura: vigente desde 2025.
- Mercosul–União Europeia: ratificado no primeiro semestre.
- Mercosul–Canadá: em fase avançada de negociação.
“Mesmo com o tarifaço batemos recorde de exportação”, resumiu Alckmin, referindo-se às barreiras impostas pelos EUA a produtos siderúrgicos e agrícolas brasileiros.
Pressão interna nos EUA e o fantasma da Lei Magnitsky
Enquanto Trump diz não ter escolhido lado, 31 parlamentares democratas enviaram carta à Casa Branca em setembro denunciando “esforço coordenado” para favorecer o candidato da oposição brasileira. O documento cita três ações concretas:
- Tarifas punitivas como moeda de troca para evitar a condenação de Jair Bolsonaro.
- Ameaça de aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes.
- Declarações públicas de autoridades americanas endossando a narrativa de fraude.
A bancada democrata alertou que a estratégia enfraquece a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental às vésperas de uma eleição presidencial.
O que observar daqui para frente
O PL, partido de Flávio Bolsonaro, reconheceu formalmente a vitória de Lula na segunda-feira (26), o que reduz o ruído político interno. O foco agora desloca-se para a mesa de negociação: o governo brasileiro sinaliza que manterá o diálogo com Washington, mas sem depender exclusivamente dele.
Para empresários e investidores, o sinal claro é a diversificação de mercados. A combinação de recorde exportador com novos blocos comerciais sugere que a vulnerabilidade a sanções unilaterais diminuiu. Acompanhar a tramitação do acordo com o Canadá e a implementação do pacto com a UE será decisivo para projetar o câmbio e o fluxo de comércio no primeiro trimestre de 2027.
