Economia

Investidores estrangeiros dão ultimato: Brasil tem semanas para mostrar ajuste fiscal crível

Gráfico de queda do real e ações brasileiras com relógio marcando prazo de semanas para ajuste fiscal
Investidores internacionais pressionam Brasil por ajuste fiscal crível nas próximas semanas.

Grandes gestoras internacionais alertam: sem sinal claro de contenção de gastos nas próximas semanas, a pressão sobre o real e os juros longos deve se intensificar. O Morgan Stanley projeta queda de 20% a 30% nas ações brasileiras e enfraquecimento da economia em 2027.

O recado veio direto das mesas de análise da Robeco (US$ 450 bi sob gestão) e do banco americano Morgan Stanley. Ambos divulgaram relatórios logo após a reeleição de Lula para um quarto mandato.

O número que assusta: dívida a 106% do PIB

Simulações do Morgan Stanley mostram um cenário limite. Se o ajuste fiscal for tardio e superficial, a dívida bruta — hoje em torno de 80% do PIB — pode atingir 106% em 2035.

O banco menciona nominalmente cinco medidas que elevam a pressão nas contas públicas:

  • Reajuste no valor do Bolsa Família
  • Perda de R$ 5 bi na arrecadação com a proibição das bets
  • Terceira edição do Desenrola
  • Promessas para microempreendedores individuais
  • Subsídios a combustíveis, mantidos pela guerra no Oriente Médio

Janela de observação: o próximo mês decide

Investidores monitoram duas frentes simultâneas. A primeira é a composição do ministério, especialmente a chefia da Fazenda. Em 2022, Fernando Haddad foi anunciado na primeira quinzena de dezembro.

A segunda frente é a revisão do orçamento de 2027. A credibilidade do pacote fiscal e a capacidade do Banco Central de seguir cortando juros são as variáveis que ditarão o fluxo de capital.

Congresso mais à direita: entrave ou freio?

Senado e Câmara terão as bancadas mais conservadoras desde o início do governo Lula. O PL, de Jair Bolsonaro, comandará as maiores bancadas nas duas Casas.

Para Daniela da Costa-Bulthuis, gestora de emergentes da Robeco, há dois lados:

“A fragmentação política pode dificultar a aprovação das medidas fiscais necessárias, mas essas restrições institucionais também funcionam como mecanismos de controle sobre políticas que o mercado vê com ressalvas.”

A leitura dos investidores não é binária. A questão central é se o Executivo conseguirá construir uma relação funcional com o Legislativo — capaz de viabilizar um orçamento crível sem romper a disciplina fiscal.

Ambiental ajuda, mas não substitui o fiscal

O menor desmatamento já registrado na Amazônia e no Cerrado durante o governo Lula 3 foi bem recebido. Mas a Robeco avisa: avanços ambientais fortalecem a tese de investimento ESG, não eliminam a exigência de governança e política macroeconômica sólidas.

“Investidores ESG não são instituições de caridade”, resume Bulthuis. “Seguem avaliando crédito, práticas corporativas e indicadores fiscais junto aos ambientais.”

O que observar daqui para frente

Três sinais concretos vão ditar o humor do mercado nas próximas semanas: anúncio do ministro da Fazenda, envio de proposta de revisão orçamentária para 2027 e primeira rodada de negociação com as novas lideranças do Congresso. A ausência de qualquer um deles reacende a rota de fuga para ativos mais seguros.