Cultura

O cálculo frio: por que evangélicos viraram o jogo por Flávio no fim

Líderes evangélicos e Flávio Bolsonaro em encontro político no Rio de Janeiro
Aliança pragmática: evangélicos fecham apoio a Flávio Bolsonaro na reta final da eleição carioca

Líderes evangélicos fecharam apoio a Flávio Bolsonaro na reta final da disputa carioca, mas a aliança nasceu de pragmatismo, não de convicção. O que fez o campo religioso mudar de lado em setembro depois de meses de resistência silenciosa?

O gatilho de setembro que mudou tudo

Até meados do ano, pastores de grandes denominações mantinham distância da pré-campanha. O cenário virou quando o ministro André Mendonça tornou públicas mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e o empresário Álvaro Vorcaro, além do contrato firmado com a esposa do magistrado.

A revelação incendiou a base bolsonarista e forçou a entrada em campo de nomes como Valnice Milhomens e Samuel Ferreira. No Maracanãzinho, o bispo da Assembleia de Deus Madureira chegou a pedir que o público repetisse “irmão vota em irmão”, selando o apoio público que faltava.

Por que Tarcísio era o plano A (e Flávio, o risco calculado)

Em conversas reservadas, a cúpula evangélica admitia preferir o governador Tarcísio de Freitas para 2026. A leitura era simples: Flávio tinha maior probabilidade de derrota e, se eleito, poderia comprometer o projeto de poder da direita nacional.

Três pontos específicos travavam o entusiasmo:

  • Mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, banco público do DF;
  • Imóveis adquiridos com recursos em espécie;
  • Repasse de Vorcaro para filme sobre Jair Bolsonaro e a mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro.

A comparação bíblica que circula nos bastidores

Interlocutores do meio religioso comparam a família presidencial à do sacerdote Eli, do primeiro livro de Samuel. A narrativa: um pai honrado que não conteve filhos que desviavam ofertas e cometiam falhas morais.

Outro rótulo colado a Flávio é o de “novo crente” — termo análogo a “novo rico”. A crítica aponta uso político da fé sem profundidade teológica, vinculado à Comunidade das Nações, vista como atraída pelo poder.

O pragmatismo que selou a aliança

Quando o apoio finalmente veio, não houve romantismo. Três vetores práticos ditaram a decisão:

Fator Peso na decisão
Voto bolsonarista consolidado Alto
Pressão da base fiel Médio
Proximidade com eventual prefeito Alto

Antes da arrancada nas pesquisas, pastores já davam 2026 como perdida e miravam Tarcísio para 2030. A virada de Flávio no Rio alterou o xadrez de curto prazo, mas não apaga as ressalvas estruturais.

O que observar daqui para frente

O desfecho abre uma janela para 2026: a direita evangélica mostrou que vota unida quando o antipetismo fala mais alto, mas cobra reciprocidade. O caso Otoni de Paula — conservador nos costumes, ex-aliado do bolsonarismo, derrotado ao declarar voto em Lula no primeiro turno — vira teste de fogo. Visto com desconfiança pelo PT, ele pode se tornar ponte para negociações que o petismo e seus evangélicos não conseguiram ou não quiseram fazer até hoje. Quem monitora risco político deve acompanhar se essa mediação efetivamente ocorre ou se o racha se aprofunda.