Economia

O segredo que ninguém conta sobre o agro no governo Lula…

Agronegócio brasileiro em 2024: safra ameaçada por juros altos, commodities em queda e El Niño
O setor agropecuário enfrenta tempestade perfeita com custos elevados e riscos climáticos na safra atual.

O agronegócio brasileiro entra em 2024 sob uma tempestade perfeita: juros altos, commodities em queda e o fantasma do El Niño pairando sobre a safra que está sendo plantada. A conta pode chegar para toda a sociedade.

Não é a primeira vez que o setor enfrenta esse cenário. Em 2006, o então ministro Roberto Rodrigues classificou o momento como “uma das piores crises das últimas décadas”. Dezoito anos depois, os mesmos gargalos persistem — e alguns ficaram maiores.

O nó dos juros e o ciclo vicioso do endividamento

A Selic em patamar elevado torna o crédito rural caro e alonga dívidas que já pesam no balanço das propriedades. Diferente de outros setores, o agro não consegue repassar esse custo ao consumidor final quando os preços internacionais caem.

Um seguro rural desenhado para dividir riscos entre produtor, governo e mercado — e não apenas subsidiado pelo Tesouro — reduziria a volatilidade. Mas o modelo atual ainda depende quase exclusivamente de recursos públicos, o que limita a escala e a velocidade de resposta.

Commodities: a armadilha dos estoques globais

Os preços das principais commodities agrícolas recuaram nos últimos ciclos por causa da recomposição de estoques mundiais. Soja e milho, carro-chefe da pauta de exportação, operam em patamares que mal cobrem o custo de produção da safra 2024/25.

  • Custo de produção: subiu dois dígitos percentuais no último ano
  • Preço da soja em Chicago: abaixo de US$ 12/bushel nas projeções atuais
  • Margem do produtor: negativa ou próxima de zero em várias regiões

O governo projeta safra recorde de 367 milhões de toneladas de grãos. Se confirmado, o volume ajuda a diluir custos fixos — mas pressiona ainda mais as cotações.

El Niño: a variável que ninguém controla

O fenômeno climático já castiga o Cone Sul. No Rio Grande do Sul, estiagens consecutivas reduziram a produtividade da soja em até 30% em algumas microrregiões na safra passada. Para 2024/25, os modelos indicam chuvas irregulares no Sul e excesso de umidade no Centro-Oeste durante a colheita.

Se a quebra se confirmar, o efeito cascata atinge:
– Renda do produtor (já comprimida)
– Arrecadação de estados exportadores
– Preço dos alimentos na cesta básica urbana

Geopolítica: fertilizantes e diesel sob pressão

As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio alongaram cadeias de suprimento de insumos essenciais. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. Cada semana de conflito adiciona prêmio de risco ao frete e ao produto.

O diesel, base logística do escoamento da safra, segue indexado ao petróleo internacional. Sem hedging cambial eficiente, o custo de transporte torna-se imprevisível.

O tabuleiro externo: China, Europa e o jogo diplomático

Do lado positivo, a manutenção da relação pragmática com a China — maior compradora do agro brasileiro — evita rupturas bruscas. Um alinhamento automático com Washington poderia forçar retaliações comerciais de Pequim, cenário que o setor evita a todo custo.

Já a União Europeia prepara novas barreiras: a lei antidesmatamento (EUDR) entra em vigor em 2025 exigindo rastreabilidade georreferenciada de cada lote exportado. Pequenos e médios produtores, sem estrutura de certificação, correm risco de exclusão do mercado europeu.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o ritmo do setor nos próximos 12 meses: a intensidade do El Niño entre dezembro e março, a trajetória da Selic nas reuniões do Copom e a velocidade de implementação da rastreabilidade para atender à EUDR. Quem depende do agro — direta ou indiretamente — deve monitorar esses indicadores semanalmente. A próxima safra não perdoa improvisação.