A cúpula evangélica do Rio de Janeiro não queria Flávio Bolsonaro no Senado. O apoio público só surgiu em setembro, movido por pragmatismo e pressão das ruas, não por convicção.
O que aconteceu nos bastidores revela uma fratura exposta entre a família Bolsonaro e seus antigos aliados de púlpito — e explica por que o PL ainda teme 2026.
A profecia que ninguém pediu
Em agosto, a apóstola Valnice Milhomens subiu ao palco e decretou: “não haverá inferno que impeça o mover de Deus nesta nação”. A plateia entendeu o recado. “Vamos orar pelo Brasil” virou senha para pedir voto.
Dias depois, no centenário da Assembleia de Deus Madureira, o bispo Samuel Ferreira foi além. Disse que pediria voto para Flávio “se pudesse” e fez o Maracanãzinho repetir em coro: “irmão vota em irmão”.
A encenação escondia a realidade: até semanas antes, os mesmos líderes torciam pelo adversário.
O nome que eles queriam era outro
Em conversas reservadas, pastores de grandes denominações admitiam: o candidato ideal era Tarcísio de Freitas. Flávio carregava bagagem demais.
- Mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB
- Imóveis pagos em dinheiro vivo
- Recursos do ex-banqueiro Vorcaro para filme sobre Jair Bolsonaro
- Mentira admitida sobre encontros com o próprio Vorcaro
Para a cúpula evangélica, Flávio tinha mais chance de perder — e, se vencesse, comprometeria o projeto de poder da direita a longo prazo.
A comparação bíblica que circula nos gabinetes
Lideranças evangélicas comparam a família Bolsonaro à casa de Eli, sacerdote do Antigo Testamento. Eli era honrado, mas não conteve os filhos, que roubavam ofertas e cometiam imoralidades no templo.
A analogia não é elogio. Sinaliza que o pai abriu as portas, mas os herdeiros estariam desgastando o capital político construído em décadas.
Silas Malafaia e o rompimento silencioso
Quando Jair Bolsonaro anunciou o filho, Silas Malafaia reagiu em vídeos: “candidatura não é negócio de família”. Defendeu Tarcísio explicitamente.
Em abril, na Assembleia de Deus Belém, Flávio recebeu oração do pastor José Wellington. No mesmo evento, o deputado e pastor Marco Feliciano cobrou reciprocidade: a relação não podia ser via única.
O recado foi direto. A base exigia contrapartidas.
O gatilho que mudou tudo
André Mendonça, ministro do STF indicado por Bolsonaro, tornou públicas mensagens entre Alexandre de Moraes e o empresário Vorcaro, além do contrato deste com a mulher do ministro.
O episódio incendiou a base. Os pastores, que vinham “jogando parados” na pré-campanha, entraram em campo às pressas. Não por amor a Flávio — por sobrevivência.
O rótulo de “novo crente”
Um interlocutor próximo à cúpula define Flávio como “novo crente”: termo derivado de “novo rico”. Alguém que quer parecer mais evangélico do que é, usa a fé politicamente sem conhecer a Bíblia e chegou à religião pela Comunidade das Nações, igreja vista como deslumbrada pelo poder.
A percepção dificulta a confiança. Líderes tradicionais veem oportunismo onde Flávio vê devoção.
Pragmatismo, não lealdade
Quando enfim declararam apoio, os pastores agiram por cálculo: Flávio era o nome da direita com voto bolsonarista garantido e chance real de vitória. Somaram-se a isso a pressão dos fiéis e o interesse de estar perto de um futuro presidente da República.
Antes da arrancada final, porém, a cúpula já havia desistido de 2026. O plano B era Tarcísio para 2030.
O que observar daqui para frente
A vitória de Flávio não resolve a fratura. O PT, por sua vez, evitou mencionar Otoni de Paula — conservador nos costumes, ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, que declarou voto em Lula no primeiro turno e não se reelegeu.
Mesmo visto com desconfiança pelos petistas, Otoni pode ser a ponte que o PT nunca conseguiu construir com as grandes igrejas. A disputa pelo voto evangélico não terminou nas urnas. Mudou de endereço.
