O novo governo assume com uma fatura pesada nas mãos: desonerações, subsídios, anistias e benefícios tributários prometidos na campanha. A dúvida central não é se a conta chegará, mas quem vai pagá-la — e quando.
Sem espaço fiscal no Orçamento atual, cada real prometido precisa vir de algum lugar: corte de gasto, aumento de receita ou endividamento. A equação parece simples, mas as variáveis são políticas.
O tamanho do buraco nas contas públicas
Estimativas preliminares apontam que o pacote de bondades anunciadas pode custar entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões por ano a partir de 2024. Para efeito de comparação, o déficit primário projetado para 2023 gira em torno de R$ 100 bilhões.
Ou seja: sem medida compensatória, o rombo dobra. E o teto de gastos — ou o novo arcabouço fiscal que o substituirá — não comporta essa expansão sem ajustes.
Três caminhos, nenhum indolor
O menu de opções para fechar a conta é conhecido. Cada alternativa carrega custos políticos e econômicos distintos:
- Revisão de benefícios tributários: a chamada “gastos tributários” somam cerca de 4% do PIB. Cortá-los atinge setores organizados e lobbys fortes.
- Reoneração da folha ou de setores específicos: gera resistência imediata do empresariado e pode frear contratações.
- Combate à sonegação e contencioso administrativo: rende no médio prazo, mas depende de estruturação da Receita Federal e de vitórias jurídicas incertas.
Até agora, o governo sinalizou preferência pela terceira via — com pitadas da primeira. Mas a velocidade de arrecadação extra não acompanha o calendário de desembolsos prometidos.
O efeito nos juros e no câmbio
Mercado não perdoa incerteza fiscal. Desde a posse, a curva de juros futuros embute prêmio de risco mais alto: o DI para janeiro de 2027 opera acima de 13% ao ano, ante 11,5% no pré-eleição.
O dólar, que chegou a R$ 5,10 em novembro, passou a flertar com R$ 5,30. Para o investidor, a mensagem é clara: sem sinalização crível de como as promessas serão financiadas, o prêmio de risco segue pressionado.
O que o empresário deve monitorar agora
Três marcos regulatórios ditam o ritmo da definição fiscal nos próximos meses:
- Marco fiscal (março/abril): a regra que substituirá o teto de gastos definirá o espaço real para expansão de despesa.
- Reforma tributária (primeiro semestre): se aprovada, pode criar base para simplificação e, eventualmente, elevação de carga setorial.
- Orçamento 2024 (agosto em diante): é onde a borracha encontra o asfalto — alocações efetivas revelam prioridades reais.
Enquanto isso, a regra prática para quem decide alocação de capital: precifique incerteza. Cenários de estresse com dólar a R$ 5,50 e Selic terminal a 14% não são catastrofistas — são prudentes.
O que observar daqui para frente
A próxima reunião do Copom, o envio do projeto de arcabouço fiscal ao Congresso e a tramitação da reforma tributária formam o tripé de sinalização. Se o governo entregar duas das três peças com clareza numérica até junho, o prêmio de risco deve ceder. Se entregar zero ou uma só, a conta das promessas será paga — com juros — pelo próprio mercado.
