Justiça

Brasil Bitcoin: sócios criam empresa espelho e Justiça bloqueia transferência de ativos

Ilustração de disputa judicial envolvendo corretora Brasil Bitcoin, com símbolo de congelamento de ativos e logotipo da empresa
Justiça bloqueia transferência de ativos da Brasil Bitcoin para empresa espelho Brasil 8 em meio a disputa societária.

Uma disputa societária colocou a corretora Brasil Bitcoin — e seus 650 mil clientes — no centro de uma guerra judicial que expõe acusações graves de esvaziamento patrimonial e ligações com plataformas de apostas irregulares. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) precisou intervir às pressas para congelar a migração forçada de toda a operação para uma nova empresa, a Brasil 8, criada às pressas pelos atuais administradores.

O fundador Erick Crus, detentor de 40% do capital, ficou de fora da nova estrutura e acusa os sócios gestores de desvio de finalidade e falhas graves em controles de lavagem de dinheiro. A liminar concedida na sexta-feira (23/10) determinou a reversão imediata do domínio, dos canais Pix/TED e dos valores recebidos pela nova companhia desde meados de outubro.

Como a Brasil 8 nasceu às escondidas

Jorge de Almeida Alves e Marco Vinicius Castellari assumiram a gestão da Brasil Bitcoin em fevereiro de 2026. Meses depois, em sociedade com Hugo Benício das Neves — ex-responsável pela área comercial da corretora original —, registraram a Brasil 8. A nova empresa:

  • Possui o mesmo objeto social (corretora de criptoativos);
  • Funciona no mesmo endereço físico;
  • Assumiu a titularidade do domínio brasilbitcoin.com.br em 30 de setembro;
  • Manteve a mesma plataforma, marca, site e equipe.

Para o desembargador Rui Cascaldi, da 1ª Câmara Reservada de Direito Empresarial, não há dúvida: a intenção era transferir a operação e a clientela. O próprio Jorge Alves admitiu publicamente, em 16 de outubro, que a atividade prosseguiria pelo CNPJ da Brasil 8, alterando apenas termos de uso e contas bancárias.

O que a Justiça determinou na prática

A liminar estabeleceu prazo de 48 horas para:

  • Restabelecer a propriedade do domínio principal para a Brasil Bitcoin;
  • Redirecionar canais de pagamento (Pix e TED) para a estrutura original;
  • Devolver todos os valores recebidos pela Brasil 8 desde 16 de outubro.

O descumprimento acarretará multa diária de R$ 100 mil, limitada a R$ 5 milhões. A decisão caracteriza as condutas de outubro como esvaziamento patrimonial típico — manobra proibida quando visa prejudicar sócios minoritários ou credores.

Acusações vão além da estrutura societária

Erick Crus não se limitou à disputa de controle. Em petições anexadas ao processo, ele denuncia que a corretora original foi usada para manter contas de plataformas de apostas bloqueadas no Brasil. Segundo o empresário, as informações já foram encaminhadas à Polícia Federal, ao Banco Central e ao Poder Judiciário.

Documentos do processo apontam ao menos 26 contas vinculadas a atividades de apostas e mercados de previsão dentro da estrutura da Brasil Bitcoin. Dessas:

  • 23 utilizavam e-mails internos ou endereços associados a Marco Vinicius Castellari;
  • 3 estavam atreladas a CNPJs que, segundo a documentação, seriam inexistentes.

Algumas dessas plataformas já foram alvo de medidas de bloqueio determinadas pelo governo federal, o que eleva o risco regulatório para a corretora.

O contra-ataque da gestão atual

Em nota, a Brasil Bitcoin — hoje administrada por Jorge Alves e Marco Castellari — rejeita qualquer associação a práticas ilícitas e afirma manter compromisso com a legislação vigente. A empresa destaca que “os questionamentos apresentados já estão sendo esclarecidos às autoridades competentes”.

A defesa também aponta que, em 19 de outubro, a Justiça paulista negou pedidos de tutela de urgência feitos por Erick Crus, argumentando que o Judiciário não deve interferir na gestão interna de sociedades privadas. A corretora reforça que lançou novos produtos, investiu em infraestrutura e tem foco em “continuar crescendo e trazendo mais soluções para os clientes”.

O que observar nos próximos capítulos

O cenário permanece fluido e de alto risco para todas as partes. Três frentes merecem atenção redobrada:

  • Cumprimento da liminar: a devolução do domínio e dos fluxos financeiros em 48 horas será o primeiro teste prático da autoridade da decisão;
  • Investigações paralelas: o envolvimento de órgãos como PF e Banco Central pode transformar a disputa societária em inquérito criminal ou administrativo sancionador;
  • Impacto nos clientes: a migração forçada de contas e chaves Pix/TED pode gerar instabilidade operacional, saques travados e perda de confiança — ativos intangíveis difíceis de recuperar.

Para investidores e usuários da plataforma, a recomendação prática é monitorar comunicados oficiais, manter registros de saldos e transações recentes e avaliar a diversificação de custódia enquanto a poeira judicial não baixa. O desfecho dessa disputa deve ditar precedentes importantes sobre governança e segregação de ativos no mercado cripto brasileiro.