Economia

Ativos brasileiros derretem 30% no exterior e acendem sinal de circuit breaker

Gráfico mostra queda de 30% no ETF EWZ e 10% no real futuro após vitória de Lula
Ativos brasileiros despencam no exterior reagindo ao resultado das eleições presidenciais.

Contratos futuros do real e recibos de ações (ADRs) de grandes empresas brasileiras abriram esta segunda-feira (26) em queda livre nas bolsas de Nova York, reagindo à vitória de Lula (PT) no segundo turno. O ETF EWZ, principal termômetro do risco Brasil no exterior, tombava mais de 26% no pré-mercado por volta das 7h30, enquanto o real futuro para novembro e dezembro recuava cerca de 10%.

O movimento projeta um cenário de forte estresse para o pregão da B3 nas próximas horas, com risco real de acionamento do circuit breaker — paralisação automática de 30 minutos caso o Ibovespa caia mais de 10%.

Bancos e Petrobras lideram o massacre nos ADRs

As ações de estatais e grandes bancos privados concentram as perdas mais agressivas entre os papéis negociados em Nova York. Confira os destaques negativos no pré-mercado:

  • XP Inc.: -45%
  • Itaú Unibanco: -28%
  • Bradesco: -25%
  • Petrobras: -23%
  • Nubank: -20%

Em contrapartida, papéis com receita fortemente atrelada ao dólar ou ao ciclo de commodities amorteceram o impacto. Vale recuava 3,3% e Embraer, 3,8%. JBS, com perfil exportador, cedia apenas 2%.

Por que o mercado precifica um choque fiscal imediato

A leitura majoritária entre gestores é de que a continuidade do governo atual eleva a probabilidade de expansão de gastos sem contrapartida de receitas permanentes. Esse diagnóstico pressiona duas variáveis sensíveis simultaneamente: a curva de juros futuros e o câmbio.

Taxas longas mais altas encarecem o custo de capital das empresas, reduzem o valor presente de fluxos de caixa futuros e, por tabela, deprimem múltiplos de valuation no mercado acionário. O dólar mais caro, por sua vez, eleva o custo da dívida corporativa em moeda estrangeira e pressiona a inflação via pass-through cambial.

O que dizem os números dos grandes gestores

Levantamento do Citibank com 73 gestores de fundos de ações e multimercado, divulgado na véspera, já antecipava o pessimismo. Para 80% dos entrevistados, o Ibovespa deveria recuar mais de 5% na abertura desta segunda. No câmbio, 63% projetavam desvalorização do real superior a 5% — apenas 6% apostavam em alta da moeda brasileira.

O contraste com a semana anterior é brutal. Após o primeiro turno, a expectativa de um “tesouraço” fiscal sob eventual governo de oposição levou o Ibovespa a romper os 200 mil pontos pela primeira vez na história e atraiu ingresso líquido de mais de R$ 20 bilhões de estrangeiros até o dia 21.

O que observar nas próximas horas e dias

A abertura do mercado à vista será o primeiro teste de fogo. Além do gatilho do circuit breaker, três sinais merecem monitoramento contínuo:

  • Taxa dos contratos de DI para jan/2027 e jan/2029 — indicam o prêmio de risco fiscal de longo prazo
  • Fluxo cambial intradiário — venda pesada de bancos centrais ou fundos soberanos pode sinalizar mudança estrutural
  • Comunicação da equipe de transição — nomes para Fazenda e Planejamento e primeiras sinalizações sobre arcabouço fiscal

Historicamente, choques eleitorais geram overshooting inicial seguido de acomodação parcial nas semanas seguintes. A velocidade e a profundidade da correção, no entanto, dependerão da clareza — ou ausência dela — sobre a ancoragem fiscal nos primeiros 30 dias de governo.