Economia

O que empresários e economistas exigem de Lula agora: ajuste ou recessão?

Lula discursa após vitória em 2026 com gráficos econômicos ao fundo simbolizando desafio fiscal
Presidente eleito Lula enfrenta pressão por ajuste fiscal imediato para evitar recessão em 2027

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno deste domingo (25) e assume em janeiro de 2027 para um mandato que se estende até 2030. A vitória está confirmada, mas a governabilidade econômica depende de uma resposta que o mercado aguarda há meses: haverá ajuste fiscal ou o país entra em recessão?

O recado de economistas, CEOs e líderes setoriais ouvidos pela reportagem é uníssono: sem controle das contas públicas, regras estáveis e segurança jurídica, o nível de investimento e produção não se sustenta. A “virada política” precisa virar “virada econômica”, como resumiu Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central.

O buraco no Orçamento que assusta o mercado

Durante a campanha, o presidente eleito anunciou medidas que, somadas, pressionam o Orçamento de 2027 em pelo menos R$ 53,6 bilhões. Entre elas:

  • Tarifa zero no transporte público aos finais de semana
  • Ampliação do Pé-de-Meia para universitários
  • Perdão de dívidas de microempreendedores individuais

Para especialistas em contas públicas, o montante é incompatível com a trajetória atual da dívida e exige contrapartidas imediatas.

Herança fiscal “insustentável” no curto e longo prazo

Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e sócio da Jubarte Capital, não usou meias palavras: Lula herda do próprio governo uma situação fiscal “absolutamente insustentável”. Sem ajuste relevante, a projeção é de recessão “bastante razoável” já no primeiro ano do novo mandato.

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo, reforça: o reequilíbrio das contas públicas é o ponto de partida. “Venceu a democracia e, sob ela, há efetiva possibilidade de construção”, pondera.

Previdência: o elefante de R$ 1,1 trilhão na sala

Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca Evercore, aponta a Previdência Social como prioridade zero. O gasto previsto com o INSS no orçamento de 2026 beira R$ 1,1 trilhão. “Adiar o ajuste compromete o financiamento das prioridades sociais do próprio governo”, alerta.

Flávio Augusto da Silva, fundador da Wise Up, adiciona outro vetor de risco: a sinalização de mais gastos pode manter a taxa Selic acima de dois dígitos por mais tempo, penalizando empresas que ainda carregam dívidas da pandemia.

O que os setores pedem nos primeiros 100 dias

Além do macro, há demandas concretas por segmento. Murilo Barbosa (ATP, terminais portuários) pede redução do custo Brasil, segurança jurídica e estabilidade regulatória. Augusto Salomon (Sindicom, combustíveis) quer tributação simplificada e infraestrutura desde o dia um.

Paulo Solmucci (Abrasel, bares e restaurantes) alerta: a regulamentação do fim da escala 6×1, se não revista, pode empurrar o país à recessão. Do lado de crédito e tecnologia, Renata Herani (Technobank) e Breno Masi (iFood) cobram previsibilidade para ampliar financiamento e gerar empregos.

O segredo que ninguém conta: anúncio do ministro da Fazenda

Todos os analistas convergem em um ponto operacional: o nome do próximo ministro da Fazenda funcionará como bússola. A velocidade do anúncio e o perfil escolhido dirão se o ajuste virá por convicção ou por força das circunstâncias.

O CEO da Zag Work, ex-presidente da Anfavea e ex-vice da Ford na América do Sul, resume o dilema: “O grande desafio é o plano de governo em uma economia que precisa de ajustes impopulares e um Congresso menos alinhado com a visão que Lula teve até agora.”

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o cenário nos primeiros meses de 2027: (1) a composição da equipe econômica e o discurso de posse; (2) a tramitação de medidas de contenção de despesas obrigatórias, com foco na Previdência; (3) a reação do Congresso a pautas impopulares, especialmente em ano pré-eleitoral para 2026. Quem acompanha investimentos, crédito ou planejamento estratégico deve monitorar esses sinais semanalmente — a janela de credibilidade é curta e o custo de hesitação será pago em juros mais altos e investimento retraído.