Economia

Mercado entra em choque: vitória de Lula apaga ganhos de 15% da Bolsa em horas

Gráfico mostra queda brusca do Ibovespa e alta do dólar após vitória de Lula
Mercado reage com pânico: Bolsa apaga ganhos e dólar dispara após resultado eleitoral

O dólar futuro despencou 11% e o principal ETF brasileiro nos EUA afundou 18% na noite deste domingo (25), enquanto a confirmação da vitória de Lula (PT) desmontava a aposta majoritária da Faria Lima. O pregão de segunda-feira (26) promete ser o teste de fogo mais duro desde março de 2020.

A euforia que levou o Ibovespa aos 200 mil pontos e o dólar abaixo de R$ 5 durou exatamente o tempo da apuração. Agora, gestores correm para reposicionar carteiras diante de um cenário que ninguém precificou por completo.

O que os números mostram enquanto a Bolsa não abre

Os contratos futuros não mentem. Por volta das 21h38, o real para novembro recuava 11,29% — um movimento violento para poucas horas. O EWZ, espelho das ações brasileiras em Nova York, tombava 18,31%. Na esteira, as ADRs das maiores companhias nacionais derretiam:

  • Petrobras: -12,92%
  • Itaú Unibanco: -12,72%
  • Bradesco: -12,29%
  • Vale: -3,95%
  • Ambev: -0,61%

A assimetria chama atenção. Bancos e estatais, sensíveis à política fiscal e a interferências, lideram as perdas. Commodities exportadoras, com receita em dólar, amortecem o impacto.

Circuito breaker no radar: a memória de 2020 assombra

Analistas não descartam a paralisação automática das negociações na B3 na segunda-feira. O gatilho dispara com queda superior a 10% no Ibovespa — o mesmo nível atingido no pânico da pandemia. A diferença: desta vez, o choque é doméstico e político.

Luiz Ferreira, diretor do banco suíço EFG para as Américas, resume a equação: “Não se espera recessão imediata. O problema é a continuidade de déficits elevados, gastos crescentes e a dificuldade de governabilidade com um Congresso hostil”.

O que 73 gestores profissionais apostam para segunda-feira

Levantamento do Citibank ouviu os principais tomadores de decisão de fundos multimercado e de ações. O consenso é brutalmente claro:

  • Ibovespa: 80% veem queda acima de 5%; apenas 3% projetam alta
  • Dólar: 63% esperam desvalorização do real superior a 5%
  • Juros futuros (DI jan/2029): 67% apostam em alta superior a 100 pontos-base (hoje em 12,645%)

Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, contextualiza: “A reação tende a ser forte porque a valorização pós-primeiro turno foi expressiva. O mercado precificou uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) e errou”.

Da festa ao pânico: o termômetro da Faria Lima em tempo real

Grupos de WhatsApp da elite financeira funcionaram como sismógrafos. Quando Flávio liderou a apuração inicial, memes de “agora foi” e comemorações explodiram. A virada de Lula transformou o tom em incredulidade — muitos citavam a “unanimidade das pesquisas” a favor do adversário.

Expressões como “a vaca vai para o brejo” e previsões de “ajuste brutal” substituíram a euforia. O humor do mercado virou, literalmente, voto a voto.

O que separa o curto do médio prazo: a lição de 2023

A Suno Research lembra que o pessimismo pós-eleição de 2022 se dissipou em 2023 após a aprovação do novo arcabouço fiscal — um dos primeiros projetos do governo petista. Gustavo Sung, economista-chefe da casa, aponta o verdadeiro divisor de águas: “Precisamos acompanhar como o governo se organiza para 2027. Esse é o ponto para o qual mais chamamos atenção”.

Matheus Spiess, da Empiricus Research, adiciona uma variável ignorada nas urnas: “O Congresso está de um lado, o Executivo do outro. Impasse político precifica-se como risco Brasil”.

O roteiro dos próximos 90 dias: fiscal ou volatilidade

João Daronco, analista da Suno, sintetiza: “Pode haver movimento forte no pós-eleição, mas sua consolidação depende das medidas do eleito. A depender da condução fiscal, podemos ter reversão das expectativas iniciais”.

Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, coloca o cronômetro na mesa: “2026 ainda tem fôlego para boa-fé. Em 2027, é o concreto ou nada. Se o mercado vislumbrar que as questões fiscais não serão resolvidas, a volatilidade volta — a dívida fica cada vez mais urgente sem resolução”.

O que observar daqui pra frente

Segunda-feira dirá se o pânico noturno se confirma ou se há alívio na abertura. Três sinais valem mais que opiniões: (1) volume de estrangeiros na B3 — saída em massa confirma mudança estrutural; (2) curva de juros longa — se o DI 2029 furar 13,50%, o prêmio de risco subiu de patamar; (3) primeira medida fiscal anunciada pelo governo reeleito — arcabouço, meta de resultado primário ou reforma tributária. O mercado perdoa ideologia; não perdoa aritmética quebrada.