Economia

Lula 4º mandato: o que empresários e economistas exigem para não travar investimentos

Lula em discurso presidencial com gráficos de economia e investimentos ao fundo, simbolizando 4º mandato e demandas do mercado
Imagem de capa ilustra os desafios econômicos do 4º mandato de Lula e as exigências do setor produtivo por ajuste fiscal.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno e assume em janeiro de 2027 para um mandato que vai até dezembro de 2030. A vitória está consumada, mas a pergunta que move o mercado agora é outra: o novo governo terá coragem de fazer o ajuste fiscal que todos cobram?

Economistas, CEOs e líderes setoriais ouvidos pela reportagem são uníssonos: sem regras estáveis, previsibilidade e segurança jurídica, o nível de investimento e produção no país não decola.

O rombo herdado do próprio governo

Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, resume o sentimento: “Feita a virada política, é hora de governar e virar a economia”. Durante a campanha, Lula anunciou medidas que, somadas, custam pelo menos R$ 53,6 bilhões ao Orçamento de 2027 — tarifa zero no transporte público aos finais de semana, ampliação do Pé-de-Meia para universitários e perdão de dívidas de MEIs.

Para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e sócio da Jubarte Capital, o diagnóstico é duro:

Lula está herdando do próprio governo uma situação fiscal absolutamente insustentável, não só no longo prazo como no curto. Terá de fazer um ajuste importante e, caso não faça, colheremos recessão já bastante razoável.

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, reforça: o reequilíbrio das contas públicas é o ponto de partida. “Venceu a democracia e, sob ela, há efetiva possibilidade de construção.”

O nome da Fazenda e o sinal para o mercado

Especialistas esperam anúncio rápido do novo ministro da Fazenda. A escolha funcionará como bússola: indicará se o governo prioriza responsabilidade fiscal ou expande o gasto sem lastro.

João Amoêdo, empresário e fundador do Partido Novo, votou em Lula, mas impõe condições: “Se não reduzir a polarização, for responsável com as contas e fortalecer instituições, teremos governo medíocre que fortalecerá candidatura bolsonarista para 2030.”

Previdência: o elefante na sala

Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca Evercore, aponta a prioridade número um: a Previdência Social. O gasto previsto com INSS no Orçamento de 2026 beira R$ 1,1 trilhão. “Espero que Lula reconheça que adiar o ajuste compromete o financiamento das próprias prioridades sociais do governo.”

Flávio Augusto da Silva, fundador da Wise Up, alerta para o efeito cascata: juros acima de dois dígitos por mais tempo penalizam empresas que ainda carregam dívidas da pandemia.

O que cada setor quer nos primeiros 100 dias

  • Portos (ATP): redução do Custo Brasil, segurança jurídica, estabilidade regulatória e reforma tributária que modernize infraestrutura.
  • Combustíveis (Sindicom): tributação mais simples e investimentos em infraestrutura logística.
  • Bares e restaurantes (Abrasel): revisão da escala 6×1 — Paulo Solmucci avisa que a mudança, sem calibragem, pode empurrar o país à recessão.
  • Crédito e mobilidade (Technobank): manutenção do crédito como motor da atividade econômica e geração de empregos.
  • Publicidade (Fenapro): abertura de mercado e políticas que superem a distribuição de renda, mirando desenvolvimento estrutural.
  • Tecnologia (iFood): previsibilidade, segurança jurídica e fim da narrativa que trata empreendedor como parte do problema.

A virada que ninguém viu vir

Um CEO de grande consultoria, ex-presidente da Anfavea e ex-vice da Ford América do Sul, define: “Desde a redemocratização nunca houve virada como essa. O desafio agora é executar ajustes impopulares com um Congresso menos alinhado à visão do governo.”

A equação é clara: ajuste fiscal atrai investimento privado. Sem ele, o custo de capital permanece alto e o ciclo de estagnação se repete.

O que observar daqui para frente

Três sinais dirão se o discurso vira prática: (1) anúncio do ministro da Fazenda nas próximas semanas; (2) envio de proposta de reforma da Previdência ou contenção de despesas obrigatórias ao Congresso no primeiro semestre de 2027; (3) comportamento do governo frente à regulamentação da jornada 6×1 e às promessas de campanha que somam R$ 53,6 bilhões. Se a prioridade for gastar sem contrapartida, o mercado precifica recessão e juros altos. Se houver ajuste crível, a porta para investimentos se abre — e rápido.