Uma influenciadora com mais de 522 mil seguidores no Instagram, vista ao lado de Flávio Bolsonaro em atos de campanha, nunca existiu. A “Loirona do Flávio” foi criada por inteligência artificial para vender conteúdo adulto. Entenda como a farsa funcionou e por que isso muda o jogo nas redes sociais.
Como uma personagem falsa enganou meio milhão de pessoas
Identificada como Julia Berlli Cortez, a loira aparecia sorrindo ao lado do senador em vídeos gravados entre 17 e 18 de outubro na Bahia, Espírito Santo e São Paulo. As imagens mostravam interação natural com apoiadores e proximidade com a comitiva oficial. Tudo mentira.
Uma investigação do Projeto Comprova comparou os vídeos virais com os registros originais dos eventos. O resultado: a personagem foi inserida digitalmente no lugar do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Os movimentos idênticos nas duas versões não deixam dúvida sobre a manipulação.
O influenciador Guga Figueiredo, conhecido como “Xerife da Internet”, expôs a fraude em vídeo próprio. A ferramenta Hive AI Detector confirmou: índice de alteração por IA de 14,5% no material com a personagem, superior ao da gravação original.
O verdadeiro negócio por trás dos likes
Os vídeos políticos funcionavam como isca. O perfil acumulava seguidores com conteúdo de campanha e, em seguida, direcionava o público para um canal no Telegram que vendia material adulto. A estrutura era profissional:
- 522 mil seguidores no Instagram até 20 de outubro
- 164,4 mil inscritos no canal do Telegram
- Pacotes semanais entre R$ 14,90 e R$ 39,90
- Acesso a fotos, vídeos e conversas virtuais mediante pagamento via Pix
O Projeto Comprova rastreou os recebimentos até a Sync Tecnologia Ltda., empresa de Brasília ligada ao grupo Sync Pay. A companhia nega participação na criação da personagem e afirma atuar apenas no processamento de pagamentos. Após o contato da reportagem, as contas vinculadas à “Loirona” saíram do ar no Instagram e no Telegram.
Não é caso isolado: a indústria dos avatares eleitorais
A BBC identificou mais de 30 perfis semelhantes durante o mesmo período. O padrão se repete: personagens digitais associados a candidatos presidenciais, vídeos de apoio político para ganhar alcance e posterior redirecionamento para plataformas de conteúdo pago.
No caso da “Loirona”, um detalhe chamou atenção dos verificadores: a personagem aparecia em eventos diferentes usando a mesma roupa. A equipe de Flávio Bolsonaro foi procurada, mas não se manifestou até o fechamento da investigação original. Não há evidências de envolvimento do senador ou sua campanha na criação das montagens.
O que observar daqui para frente
Plataformas como Meta e X enfrentam pressão para detectar e remover deepfakes políticos em tempo real. O caso expõe três frentes de risco para empresas e investidores:
- Reputacional: figuras públicas podem ser inseridas em contextos falsos sem consentimento
- Regulatório: o TSE e o Congresso discutem regras mais duras para IA em eleições
- Tecnológico: ferramentas de detecção (como Hive) precisam evoluir na mesma velocidade dos geradores
Para quem monitora o ecossistema digital, o recado é claro: a linha entre engajamento orgânico e operação coordenada de monetização via deepfake ficou mais tênue. Acompanhar os relatórios do Projeto Comprova e das agências de checagem deixa de ser opcional — virou vantagem competitiva.
