Uma reportagem de fôlego publicada pela revista piauí expôs, com detalhes inéditos, como funcionaram os bastidores das negociações de vacinas contra a Covid-19 no governo federal. Seis anos após o auge da pandemia, o trabalho dos repórteres João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires conecta pontos que, na época, pareciam dispersos: um passeio de lancha no Lago Paranoá, um relógio de luxo e um contrato com preço fora da realidade de mercado.
O fio da meada começa em julho de 2021, quando o Brasil registrava uma morte por minuto. Nesse cenário, dois empresários ligados à Precisa Medicamentos — Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano — levaram o senador Flávio Bolsonaro para um passeio de lancha em Brasília. A bordo: três garotas de programa e um Rolex dourado oferecido ao parlamentar. Eles se apresentavam como representantes do laboratório indiano Bharat Biotech, fabricante da Covaxin.
O contrato que não saiu do papel (naquele momento)
Curiosamente, o encontro não gerou contrato imediato. O governo só demonstrou interesse efetivo pela vacina da Precisa em janeiro do ano seguinte. Nesse intervalo, a Bharat Biotech saiu do radar e voltou apenas quando a política mudou de figura. É aqui que a narrativa ganha novos personagens e um formato diferente de negociação.
O consórcio das 33 milhões de doses e a conta que não fechava
Em uma nova tentativa, surgiu a proposta de compra de 33 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca, bancadas por 12 grandes empresas. O modelo: metade para funcionários dos patrocinadores, metade para o SUS. O preço unitário? US$ 23,79 — quase quatro vezes o valor de referência de mercado, que girava em torno de US$ 5,25.
- Doses propostas: 33 milhões
- Preço por dose: US$ 23,79
- Referência de mercado: US$ 5,25
- Empresas no consórcio inicial: 12
- Desistências imediatas: 9
A disparidade fez nove das doze empresas abandonarem o consórcio logo após o anúncio. A operação tinha um detalhe revelador: foi a única compra de vacinas apoiada publicamente pelo então presidente Jair Bolsonaro. Com 226 mil mortes acumuladas até aquele momento, a transação não avançou — “havia gato naquela tuba”, nas palavras do colunista.
O outro lado da moeda: festas, celulares proibidos e a PF no STF
Paralelamente, a coluna traz à tona outro episódio envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal a investigação de festas organizadas por ele, nas quais convidados eram proibidos de entrar com celulares e mulheres eram contratadas para “amolecer poderosos corações” — definição do próprio Vorcaro: “Esse é meu business”.
Nomes dos recrutadores já são conhecidos. A defesa classifica a cobertura como sensacionalismo, mas a expectativa é de que o tema ganhe tração após o período eleitoral, dificultando qualquer tentativa de blindagem.
O que observar daqui para frente
As duas narrativas — a da vacina superfaturada e a das festas de influência — compartilham um padrão: o uso de acesso privilegiado a decisores públicos para viabilizar negócios de valor duvidoso. Com inquéritos em andamento no STF e material jornalístico robusto agora no domínio público, três frentes merecem atenção nos próximos meses:
- Desdobramentos do inquérito da PF sobre as festas de Vorcaro no Supremo
- Possíveis novas revelações a partir do material apurado pela piauí sobre a Precisa/Bharat Biotech
- Reações políticas e jurídicas envolvendo os citados, especialmente no entorno da família Bolsonaro
Para quem atua no setor privado ou acompanha a regulação de contratos públicos, o caso reforça a necessidade de compliance rigoroso em parcerias com o governo e de monitoramento constante de processos de compra emergencial — onde a urgência costuma ser o melhor disfarce para irregularidades.
