O vencedor do segundo turno deste domingo (25) herdará a missão de nomear um ministro da Fazenda capaz de reverter a desconfiança generalizada do mercado. A escolha não é apenas burocrática: ela ditará o rumo do câmbio, dos juros e da capacidade de investimento nos primeiros meses de 2027.
Ambos os candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), fecharam a campanha com promessas que expandem o gasto público. O desafio do próximo titular da pasta será convencer agentes econômicos de que o ajuste fiscal não ficou apenas no discurso.
O tamanho da conta que chega em janeiro
Com a máquina na mão, o petista prorrogou subsídios a combustíveis, perdoou dívidas de MEIs e acenou com um Pix de R$ 5.000 para empreendedores a partir de 2027. A lista inclui ainda a ampliação do Pé-de-Meia para universitários e tarifa zero no transporte urbano nos fins de semana.
Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro — inicialmente visto como nome da austeridade — prometeu manter ganhos reais para aposentados e recusou desvincular benefícios do salário mínimo. Também aderiu à tarifa zero, tirando do radar cortes que gerariam economia relevante.
Por que o mercado exige um “choque de credibilidade”
Se Lula vencer, a expectativa é de reação imediata: alta do dólar e dos juros futuros. O presidente precisará de um nome que recupere a confiança perdida após chamar superávit primário de “babaquice” e, só depois, tentar corrigir a rota na campanha.
Caso Flávio vença, a pressa será ainda maior. Suas recentes concessões colocaram em dúvida a disposição real para o ajuste. Sem sinalização contundente, a “boa vontade” dos investidores evapora, pressionando ativos de risco.
Os cotados para apagar o incêndio: o time de Flávio
O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, lidera as apostas. Ele conta com o apoio de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e é visto como o único capaz de ancorar expectativas rapidamente. A dúvida é se ele deixa o posto de chefe global de políticas públicas do Nubank sem garantias de autonomia.
- Marcelo Kayath (ex-Credit Suisse): articulador no mercado, tem aval de Eduardo Bolsonaro.
- Adolfo Sachsida: coordenador econômico da campanha, preferido de Jair Bolsonaro, mas com menor tração no mercado.
- Mansueto Almeida (BTG Pactual) e Alexandre Bettamio (Bank of America): nomes técnicos, mas com resistências internas (no caso de Mansueto, a relação da família Bolsonaro com André Esteves).
- Rogério Marinho (PL-RN): curinga que pode ir para Fazenda, Casa Civil ou presidência do Senado.
O xadrez do Planalto: as opções de Lula
O presidente ainda não dedicou tempo formal à transição, mas três nomes circulam com força nos bastidores. Gabriel Galípolo, atual presidente do BC, é o favorito do mercado pela proximidade com Lula e pela credibilidade técnica recente.
- Camilo Santana (PT-CE): ganhou peso na coordenação da campanha e como porta-voz.
- Renan Filho (MDB-AL): bem avaliado em Transportes, já cotado para Planejamento em 2022.
- Rafael Fonteles (Gov. Piauí): ex-secretário de Fazenda estadual, visto como quadro técnico forte, mas aliados temem “queimar” um futuro presidenciável em pasta de alto desgaste.
A permanência de Dario Durigan é considerada incerta pela maioria dos interlocutores.
O risco que ninguém precificou: a pauta extraeconômica
Além do fiscal, paira o temor de que a “pauta da vingança” — anistia a Jair Bolsonaro e impeachment de ministros do STF — consuma o capital político do novo governo. Se Flávio vencer, o comando da Receita Federal vira ponto sensível: o órgão investiga casos ligados ao candidato, como o financiamento do filme “Dark Horse” e suspeitas de lavagem de dinheiro.
Historicamente, a ingerência na Receita no governo anterior resultou em troca sucessiva de comandantes e anulação de provas no STJ. A escolha do secretário da Receita será, portanto, um termômetro imediato de independência institucional.
O que observar daqui para a frente
O anúncio do ministro deve ocorrer antes da posse, possivelmente ainda em novembro, para acalmar os ânimos. O primeiro sinal prático virá na montagem da equipe técnica (secretários de Tesouro e Orçamento) e no envio do projeto de lei de diretrizes orçamentárias (PLDO) compatível com as metas de resultado primário.
Para o empresário e investidor, a regra é clara: não basta o nome no topo. A composição do segundo escalão e a primeira medida concreta de contenção de despesas dirão se o choque de credibilidade é real ou apenas mais uma promessa de campanha.
