O vencedor do segundo turno deste domingo (25) herdará a missão de nomear o chefe da equipe econômica sob uma nuvem de desconfiança generalizada. As promessas de campanha de ambos os lados empurraram o ajuste fiscal para escanteio. O mercado já precifica volatilidade cambial e alta de juros nos primeiros dias do novo mandato.
O dilema fiscal que nasceu nas urnas
Com a caneta na mão, o atual presidente estendeu subsídios a combustíveis, perdoou dívidas de MEIs e acenou com um Pix de R$ 5.000 para empreendedores a partir de 2027. A lista não para: expansão do Pé-de-Meia para universitários e tarifa zero no transporte urbano aos fins de semana. Cada medida pressiona o Orçamento sem fonte de receita definida.
Do outro lado, o senador que o mercado via como âncora do controle de gastos recuou. Prometeu manter ganhos reais para aposentados, rejeitou desvincular benefícios do salário mínimo e aderiu à tarifa zero. O cardápio de cortes estruturais encolheu drasticamente nas últimas semanas.
Por que o anúncio do ministro virou peça-chave
A escolha do titular da Fazenda deixará de ser protocolar para virar sinalização de sobrevivência. Quem vencer precisará de um nome capaz de acalmar agentes financeiros antes mesmo da posse. O momento do anúncio — e o perfil do escolhido — ditarão a abertura dos negócios na segunda-feira seguinte.
Se o petista vencer, a reação esperada é imediata: dólar em alta, juros futuros pressionados. O ministro precisará de “choque de credibilidade” no primeiro discurso. Se o candidato do PL levar, a pressa será ainda maior: as promessas recentes criaram dúvida real sobre a disposição para ajuste.
Os nomes que circulam nos bastidores
Do lado do PL, ganha força o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. Apoiado pelo governador Tarcísio de Freitas, ele traria credibilidade instantânea — mas amigos avaliam que ele só sai do Nubank se tiver autonomia real para estabilizar a dívida. Outros cotados:
- Marcelo Kayath (ex-Credit Suisse), com trânsito no mercado e apoio de Eduardo Bolsonaro
- Adolfo Sachsida, coordenador econômico da campanha, preferido de Jair Bolsonaro
- Mansueto Almeida (ex-Tesouro, hoje BTG), embora a família Bolsonaro veja André Esteves com ressalvas
- Alexandre Bettamio (Bank of America)
- Rogério Marinho, senador e coordenador da campanha, curinga para Fazenda ou Casa Civil
No entorno do PT, a indefinição é maior. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, aparece como nome forte para dar credibilidade fiscal. O atual ministro Dario Durigan tem permanência incerta. Senadores Camilo Santana (PT-CE) e Renan Filho (MDB-AL) — este com gestão bem avaliada em Transportes — correm por fora. O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, ex-secretário de Fazenda estadual, agrada ao mercado, mas aliados temem “queimá-lo” em pasta de alto desgaste.
O fantasma da ingerência na Receita Federal
Cenário exclusivo de vitória do PL: o comando da Receita vira ponto sensível. O órgão conduz investigações com PF e MPF, incluindo casos ligados ao Banco Master, de Daniel Vorcaro — que financiou filme sobre o pai do candidato a pedido dele. Flávio é investigado no STF no inquérito do “Dark Horse” e alvo de pedido de inquérito por suspeita de lavagem envolvendo o advogado Willer Tomaz. A campanha nega que ele seja investigado e diz que os autos não viraram inquérito.
No governo anterior, Jair Bolsonaro pressionou a Receita para blindar o filho na apuração de rachadinha. O episódio gerou demissões em série e substituição por aliados. As provas foram anuladas pelo STJ em novembro de 2021. O risco de repetição assusta investidores.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o cenário nas próximas 72 horas: o placar final (margem apertada amplia pressão por aceno ao mercado), o horário e o tom do anúncio do ministro, e a primeira entrevista do escolhido — onde a menção a “arcabouço fiscal”, “meta de resultado primário” e “autonomia do BC” funcionará como termômetro. Sem sinalização clara de controle de gastos, a boa vontade dos agentes evaporará. O câmbio e a curva de juros responderão antes do discurso de posse.
