Economia

A conta de R$ 290 bi que explode em 2027: o segredo das urnas

Lula e Bolsonaro em segundo turno com cifra de R$ 290 bilhões representando promessas fiscais
A fatura de R$ 290 bi em promessas eleitorais que explode em 2027.

A disputa pelo Palácio do Planalto deixou de lado a prudência fiscal e transformou a reta final do segundo turno em um leilão de benesses que custará caro a partir de janeiro de 2027. O vencedor herdará uma fatura estimada em até R$ 290 bilhões em promessas, sem combinar como pagá-la.

De um lado, o petista Luiz Inácio Lula da Silva acionou um pacote de R$ 290 bilhões nos últimos dias de campanha. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL) respondeu com uma lista de medidas que vão do congelamento de dívidas à ressurreição de programas extintos, sem apresentar a contrapartida orçamentária. O resultado é um cenário de incerteza que já assusta o mercado e pressiona a curva de juros.

O tamanho do buraco no Orçamento de 2027

As contas não fecham sozinhas. Segundo o Ministério do Planejamento, apenas as medidas de Lula geram um impacto entre R$ 53,6 bilhões e R$ 82 bilhões no Orçamento do primeiro ano do próximo mandato. A consultoria XP Investimentos eleva a projeção para até R$ 83 bilhões, exigindo um ajuste imediato de R$ 30 bilhões entre cortes e aumento de receita.

O economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, calcula um custo de R$ 43,6 bilhões para 2027 apenas nas propostas petistas, saltando para R$ 195,6 bilhões no horizonte até 2030. “Será preciso, após o segundo turno, colocar a bola no chão e voltar às planilhas”, resume Salto.

O cardápio de Flávio: muitas promessas, pouca conta

A campanha do PL proibiu assessores econômicos de detalhar o custo das propostas, forçando analistas a estimar o rombo pelo que o candidato diz que não fará — como conter gastos ou manter o split payment da reforma tributária. A lista de bondades anunciadas nas últimas semanas inclui:

  • Congelamento de dívidas bancárias (6 meses para PF, 1 ano para MPEs);
  • Recriação do Perse (isentas para eventos), custo estimado em R$ 25 bi/ano;
  • “Pix cashback” para devolver parte dos gastos do consumidor;
  • Pedágio zero para motociclistas;
  • Atualização da tabela SUS e renegociação de dívidas de Santas Casas;
  • Manutenção e ampliação de Bolsa Família, salário mínimo real, Pé-de-Meia e pisos de saúde/educação;
  • Revisão da reforma tributária e fim do split payment (risco de queda de arrecadação);
  • Redução de impostos sobre consumo.

Sem detalhamento, o impacto total permanece uma incógnita, mas a direção é clara: expansão de despesas obrigatórias e renúncia de receitas estruturais.

O pacote de Lula: bondades com prazo de validade

O presidente-candidato não ficou atrás. Seu “pacote de bondades” concentra medidas de alto apelo eleitoral e execução imediata:

  • Desenrola 3 (renegociação e perdão de dívidas, Pix para MEI, teto do MEI a R$ 5 mil);
  • Expansão do Pé-de-Meia (universitário e ensino médio);
  • Proibição das bets (impacto fiscal indireto);
  • Reajuste no Bolsa Família;
  • Subvenção ao preço dos combustíveis e desoneração de PIS/Cofins;
  • Canetas emagrecedoras no SUS;
  • Tarifa zero de ônibus nos finais de semana;
  • Promessa de perdão de dívidas de bares e restaurantes (resposta ao Perse de Flávio).

A subvenção aos combustíveis é um capítulo à parte: assim como em 2023, o próximo presidente terá dificuldade política para retirar o benefício de uma vez, criando uma despesa recursiva não prevista no teto.

Populismo “ecumênico” e o juros alto

Para Silvia Matos, coordenadora do Observatório de Produtividade do IBRE-FGV, o fenômeno é bipartidário. “O populismo fiscal é ecumênico nas eleições. Dar dinheiro para todo mundo é mais popular. É para empresário, para a população. Quem quer dinheiro, né?”, afirma.

Ela destaca a frustração com a volta do Perse, programa extinto em 2025 por ser considerado caro e ineficiente. “O relançamento demonstraria um governo refém dos empresários”, diz. O cenário se agrava com juros reais elevados no Brasil e no exterior, encarecendo o serviço da dívida e reduzindo o espaço fiscal para investimentos.

Há ainda a pressão pela compensação aos empresários caso a escala 6×1 de trabalho seja extinta, adicionando mais uma variável desconhecida na equação de 2027.

O que observar daqui para frente

O dia seguinte à eleição marca o início da “vida real”. O primeiro teste será a montagem do Orçamento de 2027, que precisará acomodar promessas contraditórias dentro do arcabouço fiscal — ou mudar as regras do arcabouço. Três variáveis definirão a trajetória da dívida:

  • Destino do split payment: sua extinção retira um mecanismo anticíclico de arrecadação;
  • Desmame dos combustíveis: a velocidade de saída da subvenção ditará o déficit primário do 1º semestre;
  • Detalhamento do congelamento de dívidas: se for amplo e sem contrapartida, afeta balanços de bancos e projeções de inadimplência.

Investidores e gestores devem monitorar os primeiros sinais da equipe de transição: a nomeação do ministro da Fazenda e o discurso sobre “revisão de gastos” versus “cumprimento de promessas” ditarão o prêmio de risco do Brasil nos próximos quatro anos. A conta chegou; falta saber quem vai pagar.