A disputa pelo Planalto transformou a reta final do segundo turno em um leilão de benesses fiscais que cobrará a conta em 2027. Quem vencer no domingo (25) assume o mandato com uma fatura estimada entre R$ 53,6 bilhões e R$ 83 bilhões apenas para o primeiro ano de governo — sem contar o custo de promessas ainda não detalhadas.
Duas estratégias, um mesmo destino: pressão no Orçamento
De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ativou um pacote de R$ 290 bilhões nos últimos dias de campanha. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL) rejeitou ajuste de gastos e empilhou promessas setoriais sem apresentar a contrapartida orçamentária. O resultado é simétrico: ambos ampliam o risco de descumprimento da regra fiscal antes mesmo da posse.
O Ministério do Planejamento projeta impacto de R$ 53,6 bi nas contas de 2027 vindas das medidas petistas. O mercado, mais conservador, eleva a conta para R$ 82 bi. A XP Investimentos, em relatório desta semana, cravou teto de R$ 83 bi necessários só para acomodar as novidades no Orçamento do ano que vem.
O que Lula colocou na mesa
- Desenrola 3: renegociação e perdão de dívidas, Pix para MEI, teto do MEI elevado para R$ 5 milhões
- Pé-de-Meia expandido: versões para ensino médio e universitário
- Combustíveis: subvenção de preços e desoneração de PIS/Cofins
- Bolsa Família: reajuste acima da inflação
- Outras: canetas emagrecedoras no SUS, tarifa zero de ônibus nos fins de semana, promessa de perdão a bares e restaurantes
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, calcula que o pacote lulista pode custar R$ 43,6 bi em 2027 e R$ 195,6 bi até 2030. A conta explode se as subvenções de combustível não forem desmamadas — repetindo o cenário de 2023, quando Lula herdou a desoneração bolsonarista e não conseguiu extingui-la de imediato.
A lista de Flávio: benefícios setoriais sem fonte de custeio
A campanha do PL silenciou seus assessores econômicos para evitar ruídos. Com isso, analistas passaram a ler o que o candidato diz que não fará para dimensionar o espaço de ajuste. A promessa de não mexer em pisos constitucionais, salário mínimo real, Bolsa Família, Pé-de-Meia e Previdência atrelada ao mínimo trava a maior parte do gasto primário.
O menu de benesses anunciadas nos últimos dias — inclusive no debate da Globo na sexta (23) — inclui:
- Congelamento de dívidas bancárias: 6 meses (pessoas físicas) e 1 ano (MPEs)
- Recriação do Perse (isenção para eventos): custo estimado de até R$ 25 bi/ano
- “Pix cashback”: devolução de parte dos gastos ao consumidor
- Pedágio zero para motociclistas
- Atualização da tabela SUS e renegociação de dívidas de Santas Casas
- Redução de impostos sobre consumo e fim do split payment da reforma tributária
Para Silvia Matos, coordenadora do Observatório de Produtividade do IBRE-FGV, o relançamento do Perse — extinto em 2025 — sinaliza “um governo refém dos empresários”. O fim do split payment, por sua vez, remove um mecanismo desenhado para reduzir sonegação, com impacto direto na arrecadação.
O efeito dominó nos gastos discricionários
Com despesas obrigatórias blindadas e receitas pressionadas por cortes de impostos, o espaço para investimentos e custeio da máquina pública encolhe. A XP estima que ajustes adicionais de R$ 30 bi — via novas receitas ou cortes — serão necessários só para fechar 2027 no azul.
Some-se a isso a pressão política pela aprovação do fim da escala 6×1, que exigirá compensação aos empresários, e o cenário para o primeiro Orçamento do novo mandato fica ainda mais estreito.
O que observar a partir de segunda-feira
Passada a euforia das urnas, a transição terá de “colocar a bola no chão e voltar às planilhas”, nas palavras de Salto. Três variáveis ditarão a viabilidade fiscal do próximo governo:
- Velocidade do desmame dos subsídios a combustíveis
- Detalhamento e custeio das promessas de congelamento de dívidas (a “grande bomba”, segundo Salto)
- Disposição política para revisar benefícios tributários setoriais em ano pré-eleitoral (2026)
O populismo fiscal, como define Matos, “é ecumênico”. A fatura chega para quem governar — e o mercado já começou a precificar o risco.
