A Justiça de São Paulo aceitou o pedido de recuperação extrajudicial da Ri Happy e de outras cinco empresas do grupo, blindando a varejista de execuções por 180 dias. O plano prevê renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas quirografárias. A decisão dá ao controle da BluSun Capital uma janela curta — 90 dias — para convencer a maioria dos credores de cada uma das seis companhias.
O deferimento saiu na sexta-feira (23) pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais. A juíza Tainá Maria Leonardo de Oliveira considerou preenchidos os requisitos legais e nomeou uma administradora judicial para fiscalizar as adesões. O caso expõe como a combinação de juros altos, queda no consumo e concorrência asiática pressiona até gigantes do varejo especializado.
O que a blindagem de 180 dias muda na prática
A suspensão das ações e execuções impede que credores individuais retirem ativos ou bloqueiem contas antes que o plano seja votado coletivamente. A magistrada frisou que a medida preserva a atividade empresarial e a paridade entre credores. Sem essa proteção, uma cobrança isolada poderia esvaziar o caixa e tornar o plano inviável.
Há um detalhe crítico: a consolidação é apenas processual. Cada uma das seis empresas — Ri Happy, PBKids, Partout, New Toys, Brincar e Divertudo — precisará demonstrar adesão da maioria de seus próprios credores. Não há voto único para todo o grupo.
Números que explicam a crise
- Dívida alvo: R$ 827,4 milhões
- Lojas próprias: 204
- Franquias: 88
- Empregos diretos: 2,6 mil
- Receita líquida média: R$ 1,2 bilhão/ano
- Queda nas vendas de brinquedos (2024): 15,5% (dados Scanntech)
- Serviço da dívida/ano: ~R$ 70 milhões
Em agosto de 2023, o grupo já havia alongado R$ 292 milhões em dívida bancária. Mas a Selic a 15% ao ano (patamar de junho de 2025) encareceu o custo desse próprio alongamento. O serviço da dívida tornou-se incompatível com o plano de negócios, segundo os autos.
Fatores além dos juros
A pandemia provocou um “descompasso severo na estrutura financeira do varejo”, diz o pedido. A recuperação pós-Covid foi atropelada por crédito restrito às famílias, endividamento alto das mesmas e inflação no custo de capital. A receita caiu enquanto o custo de servir a dívida subia.
Some-se a isso a entrada massiva de brinquedos asiáticos via Shopee e AliExpress, com preços abaixo do praticado pelo varejo nacional. A carga tributária brasileira amplia a diferença de competitividade. O efeito em cadeia no setor varejista — fechamento de pontos, devolução de áreas, renegociação de aluguéis — completa o cenário.
O cronograma daqui para frente
Os 90 dias para obter maioria simples dos credores em cada empresa começam a contar da decisão. Cumprida essa etapa, a Justiça publicará edital abrindo 30 dias para contestações de eventuais discordantes. Só então a magistrada decidirá sobre a homologação definitiva do plano.
A administradora judicial terá papel central: verificar se as adesões são válidas, se há conflitos de interesse e se o quórum foi atingido em cada uma das seis CNPJs. O volume — R$ 827 milhões — e a estrutura multiproduto tornam a fiscalização complexa.
O que observar nas próximas semanas
Três sinais dirão se a recuperação tem fôlego: a velocidade de adesão dos grandes credores bancários e de fornecedores estratégicos; a capacidade do grupo de manter o sortimento e o fluxo de lojas durante a negociação; e a reação do mercado de franquias, que responde por 88 unidades e cerca de 30% da rede. Se franqueados começarem a devolver pontos ou a questionar royalties, a equação muda.
Outro ponto: a homologação final não é automática. Credores discordantes podem alegar tratamento desigual entre as seis empresas ou questionar a viabilidade econômica do plano. A decisão da juíza, nesse caso, pesará a preservação da atividade contra os direitos de quem ficou de fora do acordo.
