Economia

O segredo que explica por que só restam 3 low costs no Brasil após Flybondi

Aeronave Flybondi estacionada em aeroporto brasileiro com portas fechadas simbolizando saída do mercado
Flybondi encerra operações no Brasil deixando apenas três low costs estrangeiras no mercado

A argentina Flybondi encerrou suas operações no Brasil em agosto, vítima de uma crise financeira que a levou a cancelar 79% dos voos programados em julho. Com a saída, o já restrito clube de companhias de baixo custo que voam para cá encolheu para apenas três players — todos estrangeiros.

O mercado aéreo brasileiro transportou 129,6 milhões de passageiros em 2025, alta de 9,4%, mas o segmento “low cost” não acompanhou a festa. Entenda por que o modelo que barateia passagens na Europa e nos EUA continua esbarrando em muros por aqui.

O colapso da Flybondi e o vácuo deixado

A Anac suspendeu a venda de passagens da Flybondi em etapas: primeiro para Florianópolis, Maceió e Salvador em julho; depois para a rota Buenos Aires-Rio em agosto. A última operação registrada ocorreu no dia 19 daquele mês. A empresa demitiu a equipe de comunicação e tirou o site do ar.

O caso replica um roteiro conhecido. A alemã Condor operou aqui entre 2018 e 2019; a norueguesa Norwegian saiu durante a pandemia. Nenhuma low cost nacional nasceu para preencher o espaço.

O trio sobrevivente e onde eles atuam

Hoje, a oferta de baixo custo resume-se a três carriers internacionais conectando o Brasil a vizinhos da América Latina e ao Caribe:

  • Sky Airline e JetSMART (Chile): rotas para Argentina, Chile, Peru e Uruguai.
  • Arajet (República Dominicana): conexão com o Caribe.

Não há low cost voando rotas domésticas brasileiras. A Anac, inclusive, não possui classificação oficial para o modelo; a definição vem do mercado.

A conta que não fecha: combustível e “Custo Brasil”

Em setembro, o litro do QAV (querosene de aviação) custava R$ 5,66 — salto de 54,4% em um ano e 32,5% frente a 2024. A tarifa média real fechou o mês em R$ 746,62 por trecho, ainda 1,9% acima de 2024.

Para o advogado André Soutelino, especialista em direito aeronáutico, o combustível responde por cerca de 40% dos custos de uma aérea no Brasil, contra 30% na média global. “Some-se a alta tributação, custos dolarizados e a desvalorização do real na última década. É uma barreira quase intransponível para novos entrantes”, resume.

O entrave jurídico que ninguém comenta

Além da economia, a legislação trava o modelo. Low costs ganham dinheiro separando o transporte de serviços acessórios: bagagem, assento, check-in no balcão, alimentação. No Brasil, o Código de Defesa do Consumidor e normas da Anac limitam essa desmembramento.

Segundo Adalberto Febeliano, especialista em aviação civil, “a empresa, para ser low cost, tem que ter filosofias low cost: sem lugar reservado, embarque sem prioridade, check-in remoto obrigatório”. Regras locais impedem cobrar pelo check-in presencial ou exigem franquia de bagagem mínima, tirando a margem que sustenta a tarifa baixa.

Cenário: o que observar daqui para frente

A expansão do segmento depende de duas variáveis voláteis: o preço do barril de petróleo e a taxa de câmbio. Qualquer alívio no QAV ou no dólar abre janela para novas rotas das três atuais ou a entrada de um quarto player — rumores apontam para a colombiana Wingo e a própria JetSMART estudando base doméstica.

Enquanto isso, o passageiro brasileiro segue refém de um mercado onde “baixo custo” virou sinônimo apenas de “voo internacional para país vizinho”. A promessa de uma Ryanair brasileira continua, por ora, no hangar.