Economia

O segredo que faz sua LCI render menos que o CDI (e o banco não explica)

Gráfico comparando LCI a 93% do CDI versus CDB 100% CDI em 6 anos, diferença de R$ 7 mil
Ilustração do impacto dos juros compostos: LCI a 93% do CDI perde R$ 7 mil para CDB em 6 anos.

Uma LCI que paga 93% do CDI não entrega 93% do rendimento total do CDI no final do prazo. Em seis anos, a diferença pode tirar mais de R$ 7 mil do seu bolso comparada a um CDB equivalente. Entender onde mora esse “desconto invisível” muda completamente a forma de escolher onde alocar seu capital.

O erro começa na intuição: achamos que percentual da taxa é igual a percentual do ganho final. A matemática dos juros compostos, porém, cobra seu preço silenciosamente a cada dia útil.

Por que 93% vira 90,2% no bolso

Vamos a um cenário realista: CDI constante a 13,65% ao ano, capitalização diária (252 dias úteis) e horizonte de seis anos. Aplicando R$ 100 mil:

  • CDI cheio (100%): R$ 215,5 mil (bruto).
  • LCI a 93% do CDI: R$ 204,2 mil (líquido, isento de IR).

O ganho da LCI foi de R$ 104,2 mil. Isso representa 90,2% do rendimento acumulado do CDI cheio, e não os 93% contratados. Acontece porque, a cada dia, a base de cálculo da LCI é menor. No dia seguinte, os juros incidem sobre saldos já divergentes. Esse efeito bola de neve amplia a distância ao longo do tempo.

Quanto maior o prazo e maiores os juros, mais brutal essa diferença se torna. Não é uma regra fixa de 90,2%; pode ser pior.

A armadilha da equivalência simplificada (109,4% do CDI)

Para comparar LCI (isenta) com CDB (tributado), o mercado costuma dividir a taxa da LCI por 0,85 (descontando os 15% de IR do longo prazo). Assim, 93% / 0,85 = 109,4% do CDI.

Parece lógico, mas está errado para prazos longos. Essa conta ignora a capitalização composta sobre o imposto que não foi pago.

Veja o resultado real no mesmo cenário de seis anos (R$ 100 mil):

  • LCI 93% do CDI: R$ 204,2 mil líquidos.
  • CDB 109,4% do CDI (com 15% IR no resgate): R$ 211,9 mil líquidos.

O CDB “equivalente” pela fórmula simplificada entrega R$ 7,7 mil a mais. Na prática, para empatar com a LCI de 93%, bastaria um CDB pagando cerca de 104,23% do CDI.

O primeiro erro: usar a alíquota errada na comparação

Muitas instituições usam a alíquota máxima de 22,5% (válida para até 180 dias) para calcular a “taxa equivalente” da LCI, mesmo que o investidor vá ficar anos aplicado. Isso infla artificialmente a atratividade do papel isento.

Exemplo: 93% do CDI isento “equivale” a 120% do CDI no CDB curto (22,5% IR). Mas no longo prazo (15% IR), a equivalência real cai para 109,4% — e, como vimos, até esse número é otimista demais pela fórmula errada.

Quem renova LCIs sucessivamente por seis anos deve comparar com um CDB de seis anos a 15% de IR, não com um CDB de seis meses a 22,5%.

Como comparar do jeito certo (e parar de perder dinheiro)

Esqueça fórmulas de equivalência de taxa. O único método à prova de falhas é projetar o valor líquido em reais na data do vencimento.

Siga este roteiro:

  1. Defina o horizonte exato de tempo (ex: 3 anos, 5 anos).
  2. Simule o montante bruto de cada opção com capitalização diária.
  3. Aplique a tributação efetiva do CDB (regressiva conforme prazo).
  4. Considere eventuais renovações intermediárias e seus custos/impostos.
  5. Compare os valores líquidos finais.

Só depois de ver o “dinheiro na mão” é que fazem sentido as análises de risco de crédito, liquidez e carência.

O que observar daqui para frente

LCIs e LCAs seguem sendo excelentes instrumentos, especialmente para prazos curtos ou quando a taxa oferecida supera o “CDB equivalente real” calculado pelo método acima. O perigo está na comparação preguiçosa.

Na próxima vez que vir uma LCI pagando “X% do CDI”, pergunte: “Quanto isso vira em reais no meu vencimento real, comparado a um CDB do mesmo prazo?” A resposta pode evitar que você deixe uma quantia relevante na mesa — sem que o banco tenha descumprido nenhuma cláusula do contrato.