Economia

LCI de 93% do CDI rende menos do que você pensa: o erro que custa milhares

Gráfico comparando rendimento LCI 93% CDI vs CDI cheio em 6 anos com diferença de R$ 7.700
A diferença real entre LCI a 93% do CDI e o CDI cheio após 6 anos: mais de R$ 7.700 a cada R$ 100 mil.

Uma LCI que paga 93% do CDI não entrega 93% do rendimento acumulado do CDI no final do prazo. Em seis anos, a diferença pode superar R$ 7.700 a cada R$ 100 mil investidos — e o banco não cometeu nenhuma irregularidade. O problema está na conta que quase todo mundo faz errado.

Entender essa matemática muda completamente a forma de comparar renda fixa isenta com CDBs tributados. A maioria dos investidores perde dinheiro não por escolher mal, mas por usar atalhos que funcionam no curto prazo e falham no longo.

O primeiro erro: usar a alíquota errada na comparação

Como LCIs e LCAs são isentas de IR para pessoa física, o mercado costuma mostrar “quanto um CDB precisaria render” para empatar. Até aí, tudo bem. O problema é a alíquota escolhida para esse cálculo.

Muitas instituições usam 22,5% — a alíquota máxima, válida para aplicações de até 180 dias. Mas se você vai manter o dinheiro por anos, a referência correta é 15% (prazo acima de 720 dias).

  • Com 22,5%: LCI a 93% do CDI ≈ CDB a 120% do CDI
  • Com 15%: LCI a 93% do CDI ≈ CDB a 109,4% do CDI

A diferença não está na LCI. Está apenas na alíquota usada para fazer a conta. Quem planeja renovar a LCI por seis anos não deve comparar com CDB de curto prazo.

O segundo erro: ignorar os juros compostos

Mesmo usando a alíquota correta de 15%, a conta 93% ÷ 0,85 = 109,4% continua errada. Ela assume que o imposto incide sobre um rendimento proporcional à taxa anunciada, mas ignora como os juros se acumulam dia a dia.

Vamos ao exemplo prático: CDI constante a 13,65% ao ano, capitalização diária, 252 dias úteis, horizonte de seis anos.

  • R$ 100 mil a 100% do CDI: viram ~R$ 215,5 mil (bruto)
  • R$ 100 mil em LCI a 93% do CDI: viram ~R$ 204,2 mil (líquido, isento)

O ganho da LCI foi de R$ 104,2 mil — apenas 90,2% do rendimento acumulado do CDI, não 93%. A cada dia, a LCI recebe juros sobre um saldo menor. Essa diferença composta amplifica a distância ao longo do tempo.

O que isso muda na disputa LCI vs CDB

Pela fórmula tradicional, LCI a 93% do CDI = CDB a 109,4% do CDI (com IR de 15%). Mas na prática, após seis anos:

  • CDB a 109,4% do CDI (líquido): ~R$ 211,9 mil
  • LCI a 93% do CDI: ~R$ 204,2 mil

São R$ 7,7 mil a mais no CDB, apesar da “equivalência” apontada pela conta simplificada. Na realidade, bastaria um CDB a 104,23% do CDI para empatar com essa LCI no mesmo prazo.

Não é que LCI seja ruim — é que a comparação exige rigor

A isenção de IR torna LCIs e LCAs atrativas, especialmente no curto prazo. Mas a vantagem tributária não transforma automaticamente qualquer percentual do CDI em retorno superior ao de um CDB bem escolhido.

Regras práticas para não cair na armadilha:

  • Compare alternativas com vencimento e horizonte idênticos
  • Projete o valor líquido em reais, respeitando capitalização diária e tributação efetiva
  • Considere a necessidade de reaplicar no vencimento e os impostos das renovações
  • Só depois avalie diferenças de crédito, liquidez e garantia do FGC

O que observar daqui para frente

Com a Selic em patamares elevados, o efeito da capitalização composta fica mais evidente — e o custo de usar fórmulas simplificadas aumenta. Antes de fechar qualquer aplicação de prazo longo, rode a simulação completa em reais. Uma planilha simples ou a calculadora do Banco Central resolvem. O que parece um detalhe técnico hoje pode ser a diferença entre ganhar ou perder alguns milhares de reais no resgate.