Apenas 5% das crianças brasileiras completaram as três doses da vacina contra a covid-19, aponta o Programa Nacional de Imunizações (PNI). O país tem doses em estoque e contratos de abastecimento garantidos, mas a cobertura não decola. Em 2026, a doença já levou mais de 1,1 mil menores de 14 anos à internação e matou 25 — 15 delas com menos de dois anos.
O abismo entre estoque e braço
O diretor do PNI, Eder Gatti, é direto: a compra e a distribuição cumprem a obrigação constitucional. O gargalo está na recusa da população, alimentada por narrativas falsas que ecoam desde a pandemia. Cada frasco descongelado dura apenas dez semanas; se não for usado, vira prejuízo — e esse custo, segundo Gatti, deve ser debitado ao discurso antivacina.
Desde 2024, o imunizante integra o calendário básico aos 6, 7 e 9 meses, podendo ser aplicado até os 5 anos. Ainda assim, a adesão permanece estagnada num patamar que expõe os mais vulneráveis.
O rastro da hesitação em números
Uma pesquisa do IBGE (2023) mostrou que 15% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos não foram vacinados nem durante a emergência sanitária. Os motivos declarados pelos responsáveis:
- 40%: medo de reação adversa ou da agulha;
- 22%: acreditar que a vacina era desnecessária;
- 18%: desconfiança no imunizante.
Esses temores não encontram respaldo na ciência. Entre as mais de 6 milhões de doses aplicadas em crianças durante a pandemia, não houve nenhum óbito associado e 92% das notificações foram eventos leves — febre e dor no local. Estudos de fase 4 e monitoramento contínuo do SUS confirmam o perfil de segurança.
Dados que não mentem: proteção real versus risco real
Um levantamento da USP em 24 cidades demonstrou que a vacina reduziu em 97% os casos graves na população infantil. Do outro lado, a própria covid-19 provoca miocardite e trombose em taxas muito superiores às observadas após a imunização.
Além da infecção aguda, há a Síndrome Inflamatória Multissistêmica (SIM-P): entre 2020 e 2023, o Brasil registrou 2.115 casos e 142 óbitos por essa complicação em crianças e adolescentes. A vacinação é a única barreira eficaz contra esse desfecho.
O cenário maior: o calendário infantil reagindo
Enquanto a covid patina, outros imunizantes mostram recuperação. O orçamento do PNI saltou de R$ 5 bilhões para quase R$ 10 bilhões previstos para 2027. Em 2022, só uma vacina do primeiro ano de vida batia a meta de 90%; no ano passado, sete superaram esse patamar.
O microplanejamento — estratégias para otimizar a estrutura municipal — e a regularização de estoques explicam a melhora. Ainda restam desafios: duas vacinas abaixo de 80% e outras sete entre 80% e 90%, incluindo a segunda dose da tríplice viral, essencial para conter o sarampo.
Novas ferramentas, resultados concretos
Incorporações recentes já demonstram impacto:
- Vírus sincicial respiratório (VSR): vacina para gestantes e anticorpo monoclonal para prematuros derrubaram em mais de 50% os casos de bronquiolite em bebês abaixo de seis meses.
- Dengue: quase 12 milhões de doses aplicadas em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos; estudos de vida real confirmam eficácia.
- Pneumococo: a troca da VPC10 pela VPC20 amplia a proteção contra pneumonia, sepse e meningite. Em 2026, já passam de 1 mil casos de meningite pneumocócica com 320 mortes — número que o novo imunizante deve reduzir.
O que observar daqui para frente
A hesitação vacinal não é um problema apenas sanitário; é econômico e logístico. Doses desperdiçadas por validade curta após descongelamento oneram o sistema e sinalizam falha na comunicação. O Ministério da Saúde aposta na capilaridade do SUS e na ampliação do calendário para reverter o quadro, mas a adesão das famílias continua sendo a variável decisiva. Acompanhar a cobertura da tríplice viral e da VPC20 nos próximos boletins do PNI será termômetro para saber se a confiança está, de fato, sendo reconstruída.
