O dólar abriu esta sexta-feira (23) praticamente parado a R$ 5,036, variação de apenas 0,03%, no último pregão antes do segundo turno. A calma aparente, porém, esconde uma reviravolta silenciosa nas expectativas de mercado.
O gatilho veio na véspera: o Datafolha mostrou empate técnico — 50,47% contra 49,53% nos votos válidos, margem de dois pontos. A diferença que parecia confortável há uma semana encolheu a ponto de caber no erro amostral.
O dado que ninguém esperava: inflação abaixo do piso
Enquanto todos olhavam as urnas, o IPCA-15 surpreendeu. A prévia de outubro desacelerou para 0,32%, bem abaixo da mediana de 0,45% projetada pelo mercado e até do piso de 0,33%. Em setembro, o índice fora 0,70%.
Em tese, inflação menor abre espaço para juros mais baixos à frente. Na prática, o mercado ignorou o alívio e focou no risco político.
Juros futuros disparam: a conta do risco político
Os contratos de DI responderam na hora. A taxa para janeiro de 2028 saltou 13 pontos-base, para 12,900%; a de 2030 subiu 11 pontos, a 12,695%. O movimento reflete a reprecificação do prêmio de risco: quanto mais acirrada a disputa, maior a incerteza fiscal.
- DI jan/2028: 12,900% (+13 pb)
- DI jan/2030: 12,695% (+11 pb)
- Selic atual: 13,75% ao ano
Na véspera, o Ibovespa já havia caído 1,15%, para 204.120 pontos, enquanto o dólar fechou em alta de 0,23%. O otimismo pós-primeiro turno — que levou a Bolsa acima de 200 mil pontos e o dólar abaixo de R$ 5 — evaporou em poucos dias.
Petróleo a US$ 113: a variável externa que aperta o cerco
Não é só política doméstica. O Brent atingiu US$ 113,50 na máxima do dia, maior nível desde maio, alta de quase 4%. Ataques a instalações da Aramco na Arábia Saudita e ameaças no Estreito de Hormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial — reacenderam o prêmio de risco geopolítico.
Petróleo caro pressiona inflação global, adia cortes de juros nos EUA e tira atratividade de emergentes. Com o Fed mantendo taxa entre 3,75% e 4%, o diferencial para o Brasil encolhe.
O que as últimas pesquisas revelam (e o que omitem)
O cenário eleitoral desenha um funil:
- Quaest (21/out): 45% vs 44%
- PoderData (22/out): 51% vs 49% válidos
- Datafolha (22/out): 50,47% vs 49,53% válidos
Todas mostram convergência. A última pesquisa antes da votação sai sábado (24). Até lá, a volatilidade deve ditar o ritmo.
Por que o mercado associa um candidato ao ajuste fiscal
A candidatura de Flávio Bolsonaro é lida como sinal de maior rigor nas contas públicas. A lógica: controle da dívida reduz prêmio de risco, alivia a curva de juros, barateia crédito e melhora lucro das empresas — ciclo virtuoso para a Bolsa.
O inverso também vale: a percepção de expansão fiscal eleva prêmios, pressiona juros longos e derruba ativos de risco. O movimento recente dos DIs sugere que o mercado já precifica probabilidade maior de cenário menos austero.
O que observar daqui para frente
Três variáveis decidirão os próximos passos: divulgação do Datafolha no sábado, desdobramentos no Oriente Médio e a reação do Ibovespa na abertura de segunda-feira (26). Se o resultado confirmar empate ou virada, espere abertura de prêmios nos juros longos e teste de R$ 5,10 no dólar. Se a margem se alargar, o alívio pode devolver o câmbio para abaixo de R$ 5.
Para quem gere posições, a regra segue a mesma: tamanho de posição compatível com a incerteza, hedges em dólar e exposição gradual em prefixados longos só com prêmio adequado. A semana que vem promete ser o termômetro real do novo ciclo.
