Economia

Newcastle em SC: O que o surto em perus significa para o comércio de aves

Granja de perus em Nova Itaberaba SC com equipe de vigilância sanitária
Operação de despovoamento sanitário em granja de perus atingida por doença de Newcastle

O Ministério da Agricultura confirmou a conclusão do despovoamento sanitário em uma granja comercial de perus de corte em Nova Itaberaba (SC), onde foi detectado o vírus da doença de Newcastle. A operação foi finalizada no domingo (18), mas a pergunta que fica para o setor produtivo é: quais serão os reflexos reais nas exportações e na cadeia de suprimentos nas próximas semanas?

Contenção em andamento: o que já foi feito

O estabelecimento foi interditado imediatamente após a confirmação laboratorial. Equipes da Cidasc, Polícia Civil, prefeitura e Instituto Catarinense de Sanidade Agropecuária atuam em três frentes simultâneas:

  • Limpeza e desinfecção das instalações conforme protocolos internacionais
  • Vigilância epidemiológica em propriedades no raio de restrição sanitária
  • Controle rigoroso do trânsito de aves, ovos, rações e equipamentos na região

O Ministério reforça que a atuação integrada visa impedir a disseminação e preservar o status sanitário da avicultura brasileira — ativo que sustenta mais de US$ 9 bilhões em exportações anuais de carne de frango.

Emergência zoossanitária: quatro municípios sob regras especiais

Uma portaria publicada na sequência do foco declarou estado de emergência por 60 dias em Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. Na prática, isso significa:

  • Suspensão de feiras, exposições e eventos com aves na área
  • Exigência de Guias de Trânsito Animal (GTA) com certificação sanitária específica
  • Fiscalização intensificada em divisas e barreiras móveis

Santa Catarina responde por cerca de 15% da produção nacional de perus e é o segundo maior exportador de carne de frango do país. Qualquer restrição adicional a compradores internacionais acende sinal de alerta em toda a cadeia.

Notificação à OMSA e parceiros comerciais: transparência como estratégia

O Brasil comunicou oficialmente a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e notificou parceiros bilaterais ainda na fase inicial do evento. Compartilhou dados técnicos, medidas adotadas e cronograma de vigilância. Essa agilidade é deliberada: em surtos anteriores, a rapidez na troca de informações evitou embargos totais e limitou restrições a regionalizações — ou seja, apenas a zona afetada sofre bloqueios, não o país inteiro.

Até o momento, nenhum grande importador (China, Arábia Saudita, Japão, Emirados Árabes, União Europeia) anunciou suspensão de habilitações de frigoríficos catarinenses. O monitoramento diário de comunicados oficiais desses mercados é, hoje, a principal tarefa de gestão de risco para exportadores.

O que é a doença de Newcastle e por que ela preocupa

Causada por um paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1) de alta virulência, a enfermidade atinge aves domésticas e silvestres com taxas de mortalidade que podem ultrapassar 90% em lotes não vacinados. A transmissão ocorre por contato direto com secreções respiratórias, fezes, equipamentos contaminados e até pelo vento em curtas distâncias.

No caso catarinense, a detecção ocorreu durante investigação epidemiológica de rotina do serviço veterinário estadual, com confirmação no Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), referência nacional para a doença. A vacinação é obrigatória no Brasil para aves comerciais, o que reduz — mas não elimina — o risco de introdução do vírus virulento.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o desdobramento econômico nas próximas semanas: (1) a conclusão da desinfecção e o prazo para reabilitação da granja — geralmente 21 a 30 dias após término da limpeza; (2) os resultados da vigilância em propriedades vizinhas, que devem ser divulgados em boletins semanais do Mapa; (3) a posição dos importadores asiáticos e do Oriente Médio, que historicamente reagem em 48 a 72 horas após notificações da OMSA.

Para gestores de risco, compradores de grãos e tradings, a recomendação prática é manter contratos de fornecimento de milho e farelo de soja com cláusulas de força maior ativas e acompanhar diariamente o Sistema de Informações Gerenciais do Serviço Veterinário Oficial (SIG-SVO) e os alertas da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal). O cenário-base continua sendo de contenção localizada, mas a velocidade da informação é o ativo mais valioso neste momento.