Economia

Como uma aula na sala de casa virou o novo negócio de Ana Maria Diniz

Ana Maria Diniz em estúdio de dança moderno com tecnologia e comunidade
Ana Maria Diniz no seu novo estúdio que une tecnologia, comunidade e bem-estar como infraestrutura.

A herdeira do grupo Pão de Açúcar transformou a frustração com aulas online em um estúdio físico que já nasce com lista de espera. O modelo mistura tecnologia, comunidade e uma aposta clara: o bem-estar não é mais luxo, é infraestrutura.

Ana Maria Diniz não precisava de mais um CNPJ no currículo. Mas a pandemia mudou a equação.

O estalo veio entre um pliê e uma conexão instável

Durante o isolamento, a empresária tentou manter a rotina de dança pelo Zoom. O espaço era apertado, o piso inadequado e a interação, nula. “Percebi que faltava um lugar onde a tecnologia servisse à experiência, não o contrário”, diz ela.

A resposta não foi criar mais um app. Foi alugar 400 m² no Jardim Paulistano, em São Paulo, e investir R$ 2,3 milhões em reforma, equipamentos de som direcional e piso flutuante certificado.

Não é academia. Não é escola de dança.

O Estúdio — nome propositalmente genérico — abriu as portas em março com 12 modalidades: do ballet clássico ao breaking, passando por dança do ventre e contemporâneo. A grade tem 84 aulas semanais.

O diferencial está nos detalhes que quem só frequenta academia não percebe:

  • Turmas limitadas a 18 alunos — 30% abaixo do padrão de mercado
  • Sistema de agendamento que aprende preferências e sugere horários
  • Espaço de convivência com café de especialidade e estação de trabalho

“Quem dança precisa de transição. Chegar correndo, trocar de roupa, mentalizar. O vestiário virou sala de estar”, explica a sócia-operadora Carolina Ribeiro.

O público surpreendeu até os sócios

Em 45 dias, 620 alunos ativos. A faixa etária? 28 a 55 anos. Executivos, mães em licença, aposentados precoces. Homens representam 38% da base — o dobro da média do setor.

O ticket médio mensal gira em R$ 890. A taxa de recompra no segundo mês: 87%.

“Não vendemos aula. Vendemos identidade”, resume Ana Maria. “A pessoa entra no estúdio e vira ‘aquela que dança’. Não ‘aquela que faz exercício’.”

A tecnologia que ninguém vê

Por trás da recepção minimalista, um CRM proprietário cruza dados de frequência, preferência de professor, histórico de lesões e até humor autorreportado no check-in. O algoritmo sugere trocas de turma antes que o aluno desista.

O sistema também gerencia lista de espera em tempo real. Se alguém cancela com 2 horas de antecedência, o próximo da fila recebe push com 90 segundos para confirmar. Taxa de ocupação: 94%.

Expansão? Só se for orgânica

A empresária descarta franquia no curto prazo. “Controle de qualidade em dança é subjetivo. Um professor ruim queima a marca em semanas.”

O plano é abrir uma segunda unidade no primeiro semestre de 2025 — provavelmente no Rio de Janeiro, onde a lista de espera já passa de 300 nomes. O investimento previsto: R$ 3,5 milhões.

Enquanto isso, o Estúdio testa módulos corporativos. Três grandes empresas já fecharam pacotes de “pausa ativa” para equipes de tecnologia. A receita B2B ainda representa 4% do faturamento, mas cresce 22% ao mês.

O que observar daqui pra frente

O mercado de bem-estar no Brasil moveu R$ 118 bilhões em 2023, segundo a ABF. Dança ainda é fatia pequena — 3,2% — mas cresce acima da média há cinco anos consecutivos.

A tese de Ana Maria: o próximo unicórnio do setor não será um app de meditação. Será um espaço físico que use dados para entregar pertencimento. O Estúdio é a aposta dela. E, pelo ritmo das matrículas, o mercado está ouvindo a música.