Economia

Ex-banqueiro acionou ex-diretor do BC para pressionar Caixa por aporte no Master

Reunião entre executivos bancários em Brasília com sede do Banco Central ao fundo
Daniel Vorcaro acionou ex-diretor do BC para pressionar Caixa por aporte de R$ 500 milhões no Master.

Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, recorreu a Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto de Supervisão Bancária do Banco Central, para tentar reverter um veto técnico da Caixa Asset a uma aplicação de R$ 500 milhões. A troca de mensagens, ocorrida em 12 de julho de 2024, revela a tentativa de usar a autoridade regulatória para constranger o banco estatal a desmentir o próprio corpo técnico.

O pedido surgiu horas após a imprensa expor que três funcionários da subsidiária haviam perdido os cargos por se oporem à compra de letras financeiras do Master — papéis sem cobertura do FGC. A manobra, se bem-sucedida, colocaria a Caixa entre os credores da instituição liquidada pelo BC em novembro de 2025.

A mensagem que expõe a articulação nos bastidores

No diálogo obtido pela reportagem, Vorcaro questiona se o “Bacen não pode pedir à Caixa para se posicionar”. O objetivo era forçar uma nota oficial alegando que o parecer contrário “não representa com veracidade a análise da Caixa completa” e que haveria uma queixa-crime pelo vazamento do relatório sigiloso.

Paulo Sérgio respondeu em menos de um minuto confirmando que a Caixa já havia sido interpelada para incluir o vazamento na apuração interna. A rapidez da resposta e a familiaridade do tratamento chamam a atenção para a proximidade entre o ex-dirigente do BC e o banqueiro em um momento crítico de liquidez do Master.

O que estava em jogo: liquidez e letras sem garantia

O Master enfrentava um severo descompasso de caixa. Em 28 de maio, o BC já exigira “adequação da gestão de liquidez”. Em 6 de junho, o banco atingiu o limite de ativos líquidos para cobrir 30 dias de vencimentos. A venda das letras de dez anos à Caixa Asset era a tábua de salvação para alongar o passivo.

Como as letras financeiras não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o risco de crédito recaía integralmente sobre o comprador. A análise técnica da Caixa Asset, datada de 4 de julho, identificou esse risco e recomendou a não realização da operação.

A reação da Caixa Asset e a queda dos técnicos

Quatro dias após o parecer desfavorável, em 8 de julho, os três responsáveis pela análise foram destituídos de suas funções. A movimentação atípica precedeu a divulgação do caso pela mídia, que ocorreu em 12 de julho — mesma data em que Vorcaro acionou o ex-diretor do BC.

Em paralelo, o banqueiro relatou a Paulo Sérgio o “estrago imenso” que a notícia causaria, mencionando a perda de uma venda de R$ 400 milhões para o fundo de pensão Amaprev (Amapá Previdência), já aprovada em comitê.

O desvio de rota: Amaprev assume o risco

Com a operação da Caixa travada, o Master redirecionou a oferta para a Amaprev. O comitê de investimentos do fundo aprovou a aplicação total de R$ 400 milhões em três etapas consecutivas no mês de julho:

  • 12/07: R$ 200 milhões (unanimidade);
  • 19/07: R$ 100 milhões;
  • 30/07: R$ 100 milhões (unanimidade).

Diferente da Caixa Asset, a gestão do fundo de pensão do Amapá ignorou os alertas de liquidez e aceitou os papéis do Master semanas antes da intervenção final.

Defesas alegam atuação técnica e institucional

A defesa de Paulo Sérgio sustenta que ele era responsável pela supervisão de bancos pequenos e médios de São Paulo, não tendo alçada sobre o Master ou a Caixa. Argumenta que o acesso ao parecer da Caixa Asset teve fim estritamente supervisional: verificar se havia apontamentos relevantes para a solidez do Master.

O Banco Central, por sua vez, informou que as interações com a Caixa ficaram a cargo da equipe específica de supervisão da instituição. A Caixa reforçou a autonomia da Caixa Asset e confirmou que a compra não foi realizada. A defesa de Vorcaro e o próprio BC não comentaram o conteúdo das mensagens.

Linha do tempo: a escalada até a liquidação

Data Evento Chave
28/05/2024 BC cobra adequação de liquidez do Master
06/06/2024 Fim da cobertura de 30 dias de vencimentos
13/06/2024 Início das tratativas com Caixa Asset
04/07/2024 Parecer técnico veta a operação
08/07/2024 Técnicos da Caixa Asset perdem cargos
12/07/2024 Vazamento na imprensa; Vorcaro aciona ex-diretor do BC
16/07/2024 Revelado oferta total de R$ 1 bi (Caixa Asset + Tesouraria)
01/11/2024 Presidente da Caixa Asset é destituído
11/2025 Liquidação do Banco Master pelo BC

O que observar daqui para frente

O episódio levanta questões sensíveis sobre a blindagem de análises de risco em estatais e o canal de acesso direto de controladores a quadros de alto escalão do regulador. Para investidores e gestores de fundos, o caso Amaprev serve de alerta: a aprovação unânime de alocação em ativos de alta complexidade e risco de crédito, dias após sinais claros de estresse de liquidez do emissor, expõe falhas de governança que podem resultar em perdas totais, já que não há FGC para cobrir letras financeiras.

A evolução do inquérito administrativo no BC e as apurações internas da Caixa ditarão se houve desvio de conduta funcional ou apenas “interesse institucional” mal executado. O mercado deve monitorar se novas regras de compliance e barreiras de informação (chinese walls) serão impostas para evitar que pressões políticas ou de mercado suplantem o parecer técnico em decisões de alocação de recursos públicos.