Economia

Combate à fraude no combustível: o que o setor exige do próximo governo

Fiscalização de bomba de combustível com selo da ANP garantindo qualidade e combate à fraude
Operação integrada da ANP verifica qualidade do combustível e combate adulteração nos postos.

Entidades do setor de combustíveis entregaram ao próximo presidente e ao Congresso uma pauta única: endurecer o cerco contra fraudes, adulterações e sonegação. A cobrança passa por reforçar a ANP, integrar órgãos de inteligência e antecipar a tributação monofásica do etanol. O que está em jogo não é apenas arrecadação — é a sobrevivência de quem joga dentro das regras.

O recado é direto: sem continuidade nas operações integradas e sem punições que doam no bolso, o crime organizado segue lucrando alto com risco quase zero.

Três frentes que o setor considera inegociáveis

A Fecombustíveis, que reúne o comércio varejista, resume a demanda em três eixos. Primeiro, manter as operações conjuntas iniciadas com a Operação Carbono Oculto — ações que uniram Polícia Federal, Receita, ANP e ministérios públicos estaduais. Segundo, aprovar no Congresso penas mais severas para quem adultera produto ou sonega impostos. Terceiro, adiantar a cobrança monofásica do etanol hidratado, prevista na Reforma Tributária, para fechar brechas usadas hoje na sonegação.

Para a entidade, a equação é simples: enquanto a adulteração render “baixo risco e alto retorno”, nenhuma campanha educativa resolve.

ANP no centro: mais gente, mais tecnologia, mais orçamento

Todas as federações convergem num ponto: a Agência Nacional do Petróleo precisa de estrutura compatível com o tamanho do mercado que fiscaliza. A Fenepospetro, que representa trabalhadores em postos, pede ampliação do quadro de fiscais e investimento em tecnologia antifraude. O presidente da entidade, Eusébio Pinto Neto, é direto: “A aferição continua a mesma há praticamente 100 anos”.

A Brasilcom, das distribuidoras, acrescenta: orçamento estável e quadro técnico suficiente para manter programas de monitoramento de qualidade. Sem isso, a fiscalização vira “ação pontual” — e o crime organizado sabe explorar os intervalos.

O que muda com a tributação monofásica

A antecipação da cobrança monofásica sobre o etanol hidratado aparece em quase todas as cartas. Hoje, o imposto incide em várias etapas da cadeia, abrindo espaço para “sumiço” de notas e sonegação. No modelo monofásico, a tributação concentra-se numa única etapa — geralmente na indústria ou importação —, o que facilita o rastreamento e reduz a informalidade.

  • Impacto direto: menos elos tributários = menos pontos de fuga
  • Rastreabilidade: cada litro passa a ter “certidão de nascimento” fiscal
  • Prazo: setor pede implementação antes do calendário padrão da Reforma

Dois projetos de lei que travam o cerco

O Instituto Combustível Legal (ICL) aponta duas propostas paradas no Congresso como prioridade absoluta para a próxima legislatura:

  • PLP 109/2025: autoriza a ANP a acessar dados fiscais dos agentes regulados, mantido o sigilo legal — hoje, a agência “enxerga” o produto, mas não a nota fiscal
  • PL 399/2025: cria novas penalidades para comercialização irregular, incluindo falsificação e adulteração, com dosimetria baseada na gravidade

O ICL também cobra aprimoramento do RenovaBio — especialmente no cumprimento das metas de CBIOs — e o desenvolvimento de ferramentas para monitorar a molécula do combustível da origem à bomba.

Devedor contumaz: quando a inadimplência vira modelo de negócio

A Unica, da indústria de cana e bioenergia, traz um termo jurídico para o centro do debate: devedor contumaz. Definido na Lei Complementar 225/2026, é a empresa que transforma o não pagamento de impostos em estratégia competitiva — sonega sistematicamente, ganha mercado com preço artificialmente baixo e empurra o prejuízo para a sociedade.

A entidade defende que a aplicação efetiva dessa lei retire a vantagem econômica de quem opera na ilegalidade. “Além de punir, é preciso eliminar o ganho financeiro da fraude”, resume a nota.

Insumos químicos: o elo invisível da adulteração

A Brasilcom aponta um flanco pouco discutido: o controle de solventes, metanol e similares. Sem rastreabilidade obrigatória desses insumos, quem adultera o combustível final compra matéria-prima sem deixar rastro. A entidade propõe registro e rastreio de ponta a ponta — do fabricante do solvente ao tanque do posto.

O que observar daqui para frente

A continuidade das operações integradas depende de vontade política e orçamento — não de lei nova. O Congresso tem nas mãos dois projetos que podem dar dentes à ANP e ao Judiciário. A Reforma Tributária abre janela para a monofasia do etanol, mas o timing de implementação ainda é incerto. E a tecnologia de verificação na bomba, prometida há anos, segue no papel.

Para o empresário honesto, a conta é clara: cada mês de atraso nessas medidas é mercado perdido para quem joga sujo. O próximo governo herdou a estrutura de inteligência montada em 2023. O teste é saber se vai ampliá-la — ou deixar o crime organizado ditar o ritmo.