Grandes empregadores no Paraná estão transformando canteiros de obras e shoppings em salas de aula durante o expediente. O resultado vai além da alfabetização: produtividade sobe e a rotatividade despenca. Entenda por que essa estratégia pode redefinir o futuro do trabalho no Brasil.
Como funciona a escola dentro da empresa
A construtora MRV mantém, desde 2011, o programa “Escola Nota 10” em 326 canteiros de obras. Já são mais de 7 mil trabalhadores impactados. Três vezes por semana, a produção para e a lousa entra no lugar das ferramentas — seja no refeitório ou na sala de treinamento.
No Park Shopping Barigüi, da Multiplan, a dinâmica é diária. Funcionários terceirizados, muitos imigrantes, estudam português e preparam-se para revalidar diplomas obtidos no exterior. A gerente de operações, Marcela Bonandin, resume: “Eles se sentem abraçados. Tem um algo a mais na entrega do dia a dia”.
Números que chamam a atenção do RH
Um levantamento interno da MRV revela o impacto direto no negócio:
- 83% dos participantes declararam vontade de permanecer mais tempo na empresa
- 89% perceberam aumento na própria produtividade
- Mais de 73 milhões de brasileiros acima de 18 anos não concluíram a educação básica (IBGE)
Para o empresário, a equação é simples: investimento em educação básica gera retorno em retenção e desempenho.
O desafio invisível: ensinar quem parou há 40 anos
A professora Silvana Bárbara, há dois anos no programa, explica a barreira real: “Tem aluno que ficou 40 anos sem estudar. São adultos que não conseguem estudar à noite nem no fim de semana — têm responsabilidades de gente grande”.
A solução veio com metodologia adaptada: avaliação inicial de nível, atividades personalizadas e reavaliações quinzenais para ajustar o ritmo. Admilson, 46 anos, parado desde os 16, define: “No começo fiquei com medo. Mas a professora explica bem, dá atenção individual. Representou uma conquista”.
Enquanto isso, a rede pública encolhe
Para quem não tem essa porta aberta, resta a EJA (Educação de Jovens e Adultos). Os dados assustam:
- Matrículas na EJA no Paraná caíram 64,5% entre 2007 e 2025
- Queda nacional no mesmo período: 55,3%
- Hoje, apenas 191 instituições estaduais ofertam a modalidade no Paraná
- Em 2025, 510 estudantes foram realocados por fechamento de turmas
Luana Smeets, do Todos Pela Educação, alerta: “A queda não significa problema resolvido. Pode ser falta de informação, necessidade de renda, ou currículo desconectado da vida adulta”.
O caminho que está funcionando
Contra a maré, as matrículas em EJA integrada à Educação Profissional crescem no Brasil. A pista é clara: o trabalhador quer certificação que abra portas para renda maior, não apenas o diploma isolado.
O novo Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado em abril de 2026, estabelece duas metas para 2030: alfabetizar 97% da população acima de 15 anos e expandir a integração EJA + formação técnica.
O que observar daqui para frente
Empresas que internalizarem a formação básica como benefício estratégico — e não apenas ação social — terão vantagem na disputa por mão de obra. O modelo MRV/Multiplan prova que o custo da hora-aula no expediente se paga em engajamento e queda de turnover. Resta saber se o setor público conseguirá espelhar a agilidade e a personalização que o setor privado já entrega na prática.
