A família Batista manteve cerca de R$ 25,7 bilhões em fundos geridos pela Reag até a liquidação da instituição pelo Banco Central neste ano. A permanência por quase uma década em uma gestora que saltou do 42º lugar para o top 10 do ranking da Anbima levanta uma questão inevitável: o que manteve o capital dos donos da JBS atrelado a um nome que, hoje, está no centro das maiores investigações financeiras do país?
A resposta começa em 2017, quando os irmãos Joesley e Wesley Batista fecharam acordo de delação na Lava Jato. Naquele momento, os grandes bancos fecharam as portas para o grupo J&F. A Reag, então uma casa modesta com R$ 12,2 bilhões sob gestão, aceitou o mandato.
A simbiose que fez a Reag explodir
A entrada dos fundos da família coincidiu com a expansão mais agressiva da história da gestora. Em 2018, apenas cinco veículos dos Batistas concentravam R$ 6,4 bilhões — mais da metade do patrimônio total da Reag na época. Sete anos depois, em agosto de 2025, a administradora figurava entre as dez maiores do Brasil, com R$ 369,7 bilhões. Desse montante, R$ 19,9 bilhões ainda pertenciam à holding J&F.
Não foi uma via de mão única. Enquanto a Reag ganhava escala e credibilidade de mercado com o selo “Batista”, a família encontrava uma estrutura flexível para organizar a sucessão, proteger ativos e otimizar tributação — práticas legais e comuns entre grandes grupos, segundo especialistas.
O vizinho perigoso: o caso Master
O primeiro grande abalo veio de fora. Em novembro de 2024, o Banco Central liquidou o Banco Master, outro cliente âncora da Reag. O rombo para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) foi estimado em R$ 40,6 bilhões, podendo chegar a R$ 51,8 bilhões com as instituições relacionadas. A operação Compliance Zero expôs a proximidade perigosa entre as duas casas.
Mesmo sem ligação direta com as fraudes do Master, a Reag viu sua reputação contaminada. A situação se agravou drasticamente em agosto de 2025, com a deflagração da Operação Carbono Oculto. A força-tarefa (MPSP, Receita Federal, PF) mirou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e fraude fiscal com suspeita de conexão com o PCC. Fundos administrados pelo grupo Reag apareceram nas investigações.
A saída silenciosa e o novo endereço
Seis dias após uma reportagem revelar que o BC identificara seis fundos suspeitos sob a guarda da Reag, a instituição foi liquidada. A família Batista, no entanto, já se movimentava. Entre fevereiro e março deste ano, os 11 fundos migraram para a Planner (administração) e a Veritas Capital Management (gestão).
A escolha da nova administradora traz um detalhe sensível: a Planner é alvo de inquérito da PF sobre aportes da Rioprevidência em letras financeiras do próprio Banco Master. A instituição afirma que a identidade dos cotistas é protegida por sigilo legal.
Onde o dinheiro realmente estava
Dados obtidos no momento da Operação Carbono Oculto mostram a anatomia do patrimônio nos fundos da Reag. A maior fatia, R$ 11,4 bilhões, concentrava-se no FIP Pinheiros, lastreado em ações da holding J&F. As cotas estão divididas entre:
- Colorado Investment Holdings (Delaware, EUA): veículo de Joesley e Wesley;
- JJMB e WWM: holdings patrimoniais individuais dos irmãos.
Outros veículos abrigavam ações da J&F Invest (Luxemburgo), da Flora, precatórios (FIDC Laguz, classificado pela J&F como “fração irrelevante”), empréstimos e ativos de energia. Três fundos separados guardam créditos de R$ 454 milhões de cada uma das irmãs (Valere, Vanessa e Vivianne) contra os irmãos, referentes à venda de suas participações na holding familiar.
O discurso da defesa e o que vigiar agora
A J&F sustenta que todos os fundos cumprem rigorosamente a regulação, são auditados e transparentes perante investidores globais. A holding afirma que a migração ocorreu tão logo suspeitas sobre a Reag vieram a público e que, até então, “nada desabonava a reputação” da gestora de João Carlos Mansur — que assinou delação premiada com a PGR, pendente de homologação no STF.
Para o mercado, o foco agora se desloca para dois pontos: a capacidade da Veritas em gerir um portfólio complexo e ilíquido como o dos Batistas, e os desdobramentos da investigação sobre a Planner. A combinação de um administrador sob suspeita e uma gestora nova no mandato cria um cenário de monitoramento obrigatório para quem acompanha a governança de um dos maiores conglomerados do país.
