Quase dois terços dos médicos americanos já consultam uma inteligência artificial antes de decidir o tratamento de um paciente. O fenômeno catapultou a OpenEvidence, fundada há três anos em Miami, para uma avaliação de US$ 15 bilhões. Mas a velocidade da adoção esconde riscos que o mercado ainda não precificou.
O “Google” dos jalecos brancos nasceu de um impulso viral
Diferente das big techs, a OpenEvidence não gastou fortunas em marketing. A ferramenta cresceu no boca a boca entre plantões e corredores de hospitais. No último mês, a plataforma processou mais de 42 milhões de consultas vindas de uma base de 1 milhão de profissionais.
O segredo está na curadoria: o chatbot acessa apenas periódicos revisados por pares, como o New England Journal of Medicine e o JAMA. “É o primeiro app de saúde voltado ao consumidor que virou viral”, resume o fundador Daniel Nadler.
Dinheiro grosso: publicidade e aporte de peso
O modelo de receita é simples: anúncios. A startup fechou US$ 100 milhões em compromissos publicitários para 2025 e projeta faturar entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões até o fim de 2026. Números que justificam, em parte, o cheque de US$ 250 milhões captado em setembro com Andreessen Horowitz, Blackstone, Thrive Capital e Sequoia.
- Valuation atual: US$ 15 bilhões (R$ 75 bi)
- Investimento total (18 meses): ~US$ 1 bilhão
- Receita projetada 2026: até US$ 500 milhões
Integração profunda: do prontuário à descoberta de drogas
A adoção espontânea forçou grandes redes a formalizarem parcerias. NYU Langone, Mount Sinai e Memorial Sloan Kettering integraram a ferramenta aos seus prontuários eletrônicos. O objetivo duplo: extrair o máximo da IA e, principalmente, blindar a segurança do paciente.
Mas a ambição de Nadler vai além da consulta. A empresa prepara ensaios clínicos em oncologia e doenças raras para usar a base de literatura na descoberta de novas moléculas. “O valor econômico disso será ordens de grandeza maior que qualquer receita de anúncio”, afirma o CEO.
A sombra dos gigantes e o dilema da precisão
AOpenAI e a Anthropic já miram o setor. A Anthropic, inclusive, firmou parceria para levar a OpenEvidence a 100 países de baixa e média renda. Enquanto isso, a startup saiu da UE e do Reino Unido por causa da regulação de IA, fechando dois mercados estratégicos.
Estudos mostram resultados divergentes. A Mayo Clinic (investidora) validou a precisão em cinco casos, mas um artigo na Nature apontou desempenho inferior a modelos gerais como Gemini e GPT-4 em benchmarks clínicos. Neurocirurgiões alertam: falta pesquisa independente sobre como implementar isso na beira do leito.
O perigo silencioso da dependência precoce
Há um consenso crescente entre educadores médicos: residentes podem pular a construção do raciocínio clínico básico se delegarem o “pensamento” à ferramenta cedo demais. A facilidade de acesso cria uma muleta perigosa antes que o médico domine a patologia.
O que observar nos próximos trimestres
A briga agora é por confiança regulatória e dados proprietários. Quem controlar os ensaios clínicos e a integração nativa nos EHRs (prontuários eletrônicos) ditará o padrão. Fique atento: a próxima rodada de valuation dependerá menos de “queries” por mês e mais de aprovações FDA para módulos de descoberta de fármacos. Se a OpenEvidence provar que sua base literária gera moléculas viáveis, o múltiplo de 30x receita projetada vira pechincha.
