Economia

IBGE retira drogas do PIB: o que ninguém contou sobre 2028

Logotipo do IBGE sobre gráfico do PIB brasileiro com ícones de drogas riscados, representando exclusão de atividades ilícitas do cálculo de 2028
IBGE remove estimativa do comércio de drogas do PIB na nova nota metodológica para base de 2028

O IBGE publicou uma nova nota metodológica sobre a atualização das Contas Nacionais e, silenciosamente, eliminou a referência à estimativa do comércio de drogas no PIB. A mudança, ocorrida quase um ano após a versão anterior, levanta dúvidas sobre o cronograma e a transparência da revisão que só terá resultados definitivos em 2028.

A primeira versão do documento, de outubro de 2025, listava a mensuração de atividades ilícitas entre as novidades da nova base. A segunda, divulgada em setembro de 2026, é mais enxuta e omite o tema. O instituto não confirma se a inclusão foi descartada ou apenas adiada.

O padrão internacional que o Brasil ainda não adota

Manuais da ONU (SNA) e do Eurostat determinam que toda atividade econômica deve ser medida, independentemente de sua legalidade. A União Europeia tornou isso obrigatório em meados da década passada.

Países como Reino Unido, França, Alemanha e Suécia já incorporam o comércio de drogas ilícitas em suas contas nacionais. O objetivo não é legitimar o crime, mas dimensionar a circulação de renda para subsidiar políticas públicas e segurança.

Por que a menção desapareceu do radar

A retirada coincidiu com uma onda de ataques políticos nas redes sociais, onde perfis de oposição usaram o tema para criticar o governo. O IBGE emitiu um esclarecimento técnico, mas manteve a indefinição: a revisão segue em andamento e novas notas serão publicadas nos próximos meses.

Especialistas ouvidos pela reportagem classificam a polêmica como ruído. Do ponto de vista estatístico, excluir atividades ilegais distorce o tamanho real da economia e a formação de renda.

Os desafios de medir o invisível

Não basta decidir incluir; é preciso metodologia. O ex-presidente do IBGE Roberto Olinto explica que a estimativa exige cruzar dados administrativos de fontes distintas:

  • Registros de apreensão da Polícia Federal e Receita Federal
  • Dados de inteligência financeira e lavagem de dinheiro
  • Pesquisas de prevalência de uso e preços de rua
  • Estimativas de produção e tráfico internacional

Essa engenharia de dados ainda não está pronta no Brasil. O teste metodológico inicial ocorreu apenas em 2021.

Mudança de comando e cronograma estendido

Em 2024, a coordenação de Contas Nacionais trocou de mãos: Rebeca Palis saiu e Ricardo Montes de Moraes assumiu. A transição gerou atritos internos, mas o instituto garante que as atualizações de notas metodológicas são rotina, baseadas em comentários externos e ajustes de cronograma.

A promessa é de seminários técnicos para detalhar itens como instituições sem fins lucrativos e atividades financeiras. A entrega final da nova série, porém, permanece marcada para 2028.

O que observar daqui para frente

Investidores e analistas devem monitorar três frentes: a publicação das próximas notas metodológicas (que detalharão setores específicos), a realização dos seminários prometidos e a capacidade do IBGE de construir a base de dados necessária para uma estimativa robusta. A inclusão ou não do comércio de drogas no PIB brasileiro não é apenas uma escolha técnica — ela definirá se as contas nacionais espelham a economia real ou apenas sua face formal.