A massa salarial do agronegócio atingiu R$ 72 bilhões no segundo trimestre, alta de 2,5% frente a 2023. O volume recorde mascara, however, uma divisão assimétrica: enquanto empregados e patrões viram os rendimentos subirem, quem trabalha por conta própria amargou queda real no bolso.
Os dados, compilados pelo Cepea e pela CNA, revelam um setor em transformação acelerada. Entender para onde o dinheiro flui agora é essencial para quem negocia insumos, projeta safras ou avalia ativos rurais.
Onde o dinheiro parou: a fratura entre categorias
Do total distribuído, R$ 46 bilhões foram para empregados (alta de 2,8%) e R$ 9 bilhões para empregadores (salto de 7,9%). O rendimento médio real do setor subiu 3,7%, chegando a R$ 2.972 mensais. Mas a média esconde abismos setoriais.
- Empregados na pecuária: ganho real de 8% no período, o maior avanço entre as categorias.
- Empregados na agricultura: alta de 4,4%, com rendimento de R$ 2.154.
- Empregadores rurais: rendimentos entre R$ 8.615 (agricultura, +14,5%) e R$ 8.961 (pecuária, +5,7%).
- Trabalhadores por conta própria: única categoria com perdas, queda de 3,1% na renda real.
Essa disparidade sinaliza que a formalização e a escala estão premiando quem tem estrutura de gestão ou vínculo celetista, pressionando o pequeno produtor autônomo.
Escolaridade e carteira assinada: o novo rosto do campo
A força de trabalho totalizou 28,28 milhões de pessoas, novo recorde histórico. Mulheres já representam 38% desse contingente. A qualidade do emprego também muda: ocupados com nível superior (completo ou incompleto) saltaram 5,4%, somando 4,94 milhões (17% do total).
Na ponta da formalidade, o saldo é positivo: empregados com carteira assinada cresceram 0,5% (9,88 milhões), enquanto os sem registro caíram 1,7% (4,2 milhões). Ainda persistem 1,44 milhão de trabalhadores sem nenhuma instrução formal, mas o grupo encolheu 3,3% no ano.
Pecuária puxa ganhos e beira recorde histórico no boi
O bom momento da renda na pecuária não é coincidência. A arroba do boi gordo atingiu R$ 380, valorização de 4,4% apenas no mês, impulsionada pela oferta restrita de animais prontos para abate. Mesmo com o fim da cota extra de 55% para exportação à China, os preços sustentam alta e se aproximam do pico real de novembro de 2020 (R$ 385 corrigidos).
No lado das lavouras, o arroz deu trégua: a saca recuou de R$ 83 para R$ 82 no Rio Grande do Sul na terceira semana do mês, aliviando custos de produção e pressão inflacionária.
Agrosserviços e primário concentram a mão de obra
Dois segmentos dominam a geração de vagas. Os agrosserviços reúnem 10,6 milhões de ocupados. O setor primário emprega 7,8 milhões, com destaque para três culturas:
- Bovinocultura: 1,73 milhão de trabalhadores.
- Café: 788 mil (período de safra no Q2).
- Horticultura: 531 mil.
Essa concentração reforça a dependência do emprego rural em cadeias específicas, sensíveis a ciclos climáticos e cambiais.
O que observar daqui para frente
A combinação de arroba firme, formalização crescente e queda de renda dos autônomos desenha um cenário de consolidação. Para investidores e gestores, três variáveis ditam o próximo trimestre: o ritmo de abates (que define a oferta de boi), a renovação da demanda chinesa sem a taxa extra e a capacidade do crédito rural de alcançar o produtor menor — justamente o grupo que ficou para trás na divisão dos R$ 72 bilhões.
