Economia

O segredo do fundador do Waze: Brasil não é hostil, é uma armadilha de ouro…

Uri Levine, cofundador do Waze, sorri em evento no Brasil com fundo dourado simbolizando oportunidade
Uri Levine revela por que a complexidade brasileira é uma "armadilha de ouro" para empreendedores

Uri Levine, cofundador do Waze e investidor do Moovit, descarta o rótulo de “país hostil” para empreender no Brasil. Para ele, a complexidade local funciona como um filtro natural que afasta gigantes estrangeiros e protege quem já está no jogo. A consequência direta? Um ecossistema menos disputado e, paradoxalmente, mais lucrativo para quem sabe navegar nele.

A complexidade como barreira de entrada

Levine compara o Brasil à Índia, que possui 38 idiomas formais, para dimensionar o desafio. “Ser complexo cria uma oportunidade porque vai inibir ainda mais a concorrência”, afirma. O investidor também derruba o mito dos ciclos de venda eternos: vender é difícil em qualquer lugar, não apenas por aqui. A diferença está na disposição de encarar a fricção inicial.

Essa visão não é teórica. Desde 2016, ele integra o conselho da Here Technologies e preside o board da Zoomcar, na Índia — prova de que opera em ambientes de alta complexidade regulatória e cultural com sucesso comprovado.

O “duocórnio” que adotou o português

Levine participou de dois exits bilionários (Waze e Moovit, cerca de US$ 1 bi cada). Esse currículo lhe deu autoridade para testar o mercado brasileiro de forma profunda. O resultado surpreendeu até a editora: a versão nacional de “Apaixone-se pelo Problema, Não pela Solução” vendeu mais que a original em inglês.

O segundo livro, “O Simples Vence”, nasceu diretamente em português. A meta agora é ousada: formar 100 mil empreendedores pela Uri Levine Startup Academy, plataforma disponível exclusivamente no Brasil.

  • Foco total: Academia online restrita ao mercado brasileiro.
  • Meta declarada: 100 mil fundadores treinados.
  • Bagagem acadêmica: Professor na IE University (Madrid) e Universidade de Tel Aviv.

Duas regras inegociáveis: problema e retenção

A filosofia de Levine desafia a obsessão por inovação radical. “As pessoas não estão procurando algo novo. O grupo de inovadores é muito pequeno, talvez 10%”, diz. A maioria tem medo de mudança e quer apenas que as coisas funcionem. Por isso, o mantra: apaixone-se pelo problema, não pela solução.

No início do Waze, investidores duvidavam: por que alguém usaria GPS num trajeto que já conhece? A resposta veio na métrica que Levine elege como a única que importa: retenção. “Significa que você criou valor para o seu cliente”, resume. Se o produto é “bom o suficiente”, o usuário não troca — e isso vale mais que qualquer feature disruptiva.

Por que o Brasil venceu a Índia na prioridade dele

Levine conhece a Índia de perto (preside a Zoomcar de lá). Ainda assim, escolheu o Brasil para lançar a academia primeiro. A leitura dele é cirúrgica: somos um país grande, social e hiperconectado. WhatsApp e Instagram não são apenas apps; são a infraestrutura de confiança onde o boca a boca escala exponencialmente.

Enquanto empresas americanas demoram a perceber o momento de entrar, o vácuo competitivo permanece. “Isso torna o ecossistema de startups no país muito lucrativo”, conclui. O portfólio atual — FairFly, Refundit, Pontera (avaliada entre US$ 500 mi e US$ 1 bi), SeeTree e Fibo — reforça a tese: ele aposta onde a complexidade assusta os outros.

O que observar daqui para frente

A janela de baixa concorrência externa não ficará aberta para sempre. Grandes players globais já mapeiam o potencial brasileiro e a barreira linguística/cultural deixa de ser impedimento com IA generativa e ferramentas de localização automática. Para o empresário local, o recado prático é: consolide sua retenção e domine o “bom o suficiente” agora. Quando a maré subir, quem já tiver o cliente fiel — e não apenas o produto “inovador” — será quem ditará as regras do jogo.