O principal confronto de ideias da campanha passou ao largo do tema que mais afeta o bolso do brasileiro. Em noite de embate direto entre os líderes nas pesquisas, o desequilíbrio fiscal — motor da inflação, dos juros altos e da perda de poder de compra — foi citado, mas não debatido. O eleitor saiu da transmissão sem respostas concretas sobre como cada candidato pretende fechar as contas públicas.
Não foi por falta de tempo. O formato permitia aprofundamento. Faltou disposição para arriscar propostas impopulares em um cenário de empate técnico, onde cada voto indeciso pesa mais do que a coerência programática.
O que estava na mesa e não foi servido
O rombo nas contas públicas supera R$ 230 bilhões para 2024, segundo as projeções mais recentes do mercado. A dívida bruta caminha para 80% do PIB. Servir esse passivo exige escolhas duras: corte de gastos obrigatórios, reforma da previdência complementar, revisão de subsídios ou aumento de carga tributária. Nenhuma das alternativas é eleitoralmente sedutora.
Em vez de apresentar menus de opções, os candidatos preferiram generalidades. Frases como “vamos crescer para arrecadar mais” ou “cortar desperdício” funcionam como slogans, mas não sobrevivem à aritmética do Tesouro. O crescimento necessário para resolver o déficit só com receita extra seria de 4% ao ano sustentados — patamar que o Brasil não atinge há décadas.
Impacto direto no caixa das empresas
Para o setor produtivo, a indefinição tem custo imediato. Juros reais acima de 6% ao ano travam investimentos de longo prazo. A incerteza sobre a regra fiscal adia decisões de expansão, contratação e inovação. Pequenos e médios negócios, mais sensíveis ao custo de capital, sentem primeiro.
- Crédito caro: Selic em 13,75% até meados de 2023, com queda lenta e condicionada ao fiscal.
- Planejamento paralisado: 62% dos industriais adiaram investimentos no 1º semestre, segundo a CNI.
- Câmbio volátil: Risco fiscal pressiona o dólar, encarecendo insumos importados.
Mas o efeito mais relevante aparece na confiança do consumidor.
O ciclo que ninguém quer quebrar
Sem ajuste fiscal crível, o Banco Central mantém juros restritivos. Juros altos freiam a atividade. Atividade fraca reduz arrecadação. Arrecadação menor amplia o déficit. O círculo se fecha. A única saída estrutural é quebrar a dinâmica pelo lado da despesa ou da receita permanente — o que exige capital político que nenhum dos lados demonstrou disposição para gastar na TV.
O mercado já precifica o risco. A curva de juros longa embute prêmio de 300 a 400 pontos-base acima da taxa neutra estimada. Isso significa que cada empresa paga mais caro para financiar estoque, máquina ou imóvel apenas pela dúvida sobre a trajetória da dívida.
Cenários para os próximos 180 dias
Três variáveis vão ditar o rumo da economia independentemente do vencedor:
- Regra fiscal: O arcabouço aprovado em 2023 prevê meta de déficit zero em 2024. O cumprimento depende de receitas extraordinárias (precatórios, dividendos de estatais) que não se repetem.
- Reforma tributária: A transição do IVA dual começa em 2026, mas as alíquotas de referência só serão definidas em lei complementar no próximo ano. Setores já lobbyzam por regimes especiais.
- Gasto com pessoal e Previdência: Representam cerca de 60% das despesas primárias. Qualquer ajuste estrutural passa por aqui — e esbarra em resistências congressuais e judiciais.
O que observar daqui para frente
O eleitor que vota com o bolso deve monitorar três sinais concretos nas primeiras semanas do novo governo: a composição da equipe econômica (sinaliza orientação ideológica), o envio do projeto de lei de diretrizes orçamentárias (LDO) com metas realistas e a disposição para negociar a lei complementar da reforma tributária sem multiplicar exceções. Promessas de palanque expiram na posse. A aritmética do Tesouro, não.
