A estreia de Overman nos cinemas nesta quinta-feira (22) não é apenas o lançamento de mais um filme nacional. É o termômetro de como uma propriedade intelectual nascida em tiras de jornal nos anos 90 sobrevive — e se reinventa — num cenário onde algoritmos desenham melhor que humanos e o público exige moralidade onde antes havia apenas ironia.
A cartunista Laerte, aos 75 anos, assiste à estreia com a mesma lucidez ácida que imprime no traço. O herói que começou parodiando quadrinhos americanos no meio do rodízio paulistano ganha agora “uma história mais comprida”, nas palavras dela. Mas o que está em jogo vai além da bilheteria.
Do muquifo à Secretaria de Segurança: o arco que o mercado não previu
No longa dirigido por Tomás Portella e estrelado por Caco Ciocler, Overman deixa de ser apenas o anti-herói que divide quarto e aceita “qualquer possibilidade desse negócio”. Ele recebe uma proposta para trabalhar na Secretaria de Segurança Pública — e enxerga ali a chance de recuperar um propósito.
A coprodução envolve Star Original Productions, FSA e RioFilme, com distribuição da Migdal Filmes e codistribuição da Elo Studios. A comunicação digital fica a cargo da WIP. Números de orçamento e projeções de público não foram divulgados, mas a estrutura indica aposta de peso do setor audiovisual brasileiro em IP nacional consolidado.
O vilão que envelheceu mal — e o que isso diz sobre branding
Entre os inimigos clássicos do herói estão o Capitalista Imundo e o Maníaco Flatulento. Hoje, Laerte admite que o primeiro carrega um problema de leitura: “Chamar assim já o veste com uma capa moral, e eu não sei se isso é uma boa para uma análise ponderada nesse mundo que a gente vive hoje, que é complexo.”
Para profissionais de marca e comunicação, o caso é um estudo de como nomenclaturas satíricas envelhecem quando o discurso público muda. O que era piada de esquerda nos anos 90 virou rótulo moralista num cenário polarizado — e a criadora reconhece a armadilha.
IA no ateliê: “alguém fez essa ilustração sem precisar desenhar”
O ponto mais incisivo da entrevista não é sobre o filme. É sobre o que vem depois. Laerte viu tiras geradas por inteligência artificial e define: “não era ruim nem boa em si, mas é uma coisa meio assustadora. Alguém fez essa ilustração sem precisar desenhar. Você pode instruir a máquina para fazer o traço do Stan Lee, do Quino, do Ziraldo.”
- Risco imediato: desvalorização do ofício técnico (traço, composição, tempo de mesa)
- Risco estrutural: apropriação de estilo sem consentimento nem remuneração
- Questão aberta: como proteger assinatura visual num mundo de prompts?
Para investidores em conteúdo e estúdios, a fala da autora expõe uma fronteira jurídica e ética ainda sem regulação clara no Brasil.
O meme que virou camiseta — e a lição de retenção de audiência
“Laerte, não entendi!” virou bordão nas redes, acompanhado de um lobisomem rasgando as roupas em agonia interpretativa. A resposta da cartunista: entrou na piada, lançou a estampa em parceria com a marca Chico Rei e, ao mesmo tempo, leva a sério a falha de comunicação.
“Para quem está fazendo a história, as coisas estão muito claras, mas, para quem está lendo, não. Então, quando é uma falha minha, gosto de perceber onde fiz bobagem e evitar ou consertar.”
É uma aula de gestão de comunidade e propriedade intelectual: transformar atrito em produto sem abrir mão da autocrítica.
A armadilha da “atenção moral” e o fim da ambiguidade
Laerte cita Gol Anulado, de João Bosco (1976), música que narra violência doméstica na voz do agressor. “Na época, ninguém questionava a frase ‘tirei sem pensar o cinto e bati até cansar’, porque aquela história é entendida como a de uma personagem abusiva. Hoje, as pessoas param na frase. ‘Como assim, tirou o cinto e bateu? Não pode, isso é criminoso!’. É claro que é criminoso.”
O diagnóstico: o público contemporâneo lê com “olhos de quem lê uma fábula, de quem espera uma moral no fim da história”. Para criadores de conteúdo, roteiristas e estrategistas de narrativa, o recado é direto — a ambiguidade virou passivo. O desafio não é mais contar histórias complexas, mas sobreviver a uma leitura que exige sinalização ética constante.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o desdobramento deste caso nos próximos meses:
- Desempenho de Overman nas bilheterias e streaming — validação (ou não) do modelo de adaptação de HQ clássica para live-action no Brasil
- Regulação de IA generativa no Congresso — proteção de estilo autoral e direitos de treinamento
- Estratégia de licenciamento da marca Laerte — a parceria com Chico Rei pode virar case de extensão de IP para merchandise autoral
A cartunista resume: “Eu nunca tive 75 anos. É a primeira vez, e é difícil manter um olhar atento, aberto, interessado em tudo.” O mercado criativo brasileiro, que envelhece junto com seus grandes nomes, enfrenta o mesmo dilema. Quem souber ler o rodízio — e voar mesmo quando não pode — sai na frente.
