O principal índice acionário da Argentina, o S&P Merval, acumula queda de 6,6% em 2026, mesmo após disparar 47% nos últimos 12 meses. Esse desconto aparente coloca o país no radar de caçadores de valor, mas dois dos maiores bancos de investimento do Brasil divergem sobre a hora de puxar o gatilho.
Enquanto o Itaú BBA enxerga ponto de entrada em setores estratégicos, o Bradesco BBI mantém a recomendação de “underweight” — ou seja, exposição abaixo da média. A diferença não está no preço, mas no que falta para esse preço virar lucro real.
O preço está dado, o valor é outro
Para as duas casas, a tese de “barato” é consenso. O Itaú BBA calcula que as ações precificam um risco-país entre 800 e 1.000 pontos-base, enquanto o indicador real ronda os 600. Já o Bradesco BBI aponta que o MSCI Argentina negocia a 7,8 vezes o lucro projetado, bem abaixo da média histórica de 10,4 vezes.
No setor financeiro, o desconto é ainda mais agressivo: múltiplo de 5,9 vezes o lucro e cerca de 1 vez o valor patrimonial. Números que, na teoria, gritam “oportunidade”. Na prática, porém, o BBI alerta: valuation barato não é catalisador. Sem gatilhos claros, a reprecificação não acontece.
A sombra de 2027 já pesa no pregão de hoje
A política é a variável que impede a convergência total. O Itaú BBA divide o cenário em três camadas: o “Surf” (expectativas eleitorais), a “Maré” (política econômica) e a “Corrente” (vantagens estruturais). No curto prazo, é o “Surf” que dita a volatilidade.
O Bradesco BBI compartilha da visão de que a reeleição de Javier Milei é o cenário-base, mas faz uma ressalva crucial: a demora na recuperação da atividade doméstica aumenta, gradualmente, a competitividade da oposição — com destaque para o nome de Axel Kicillof. O mercado começa a precificar essa incerteza agora.
Fiscal em ordem, bolso do consumidor vazio
Do lado macro, há boas notícias. As duas instituições projetam o quarto ano consecutivo de superávit fiscal em 2027, com inflação caindo para cerca de 25% — um abismo em relação aos 211% de 2023. A disciplina monetária está posta.
O problema é a transmissão para a economia real. O crescimento real do crédito desacelerou para 1,6% no terceiro trimestre, ante 4,7% no anterior. Inadimplência alta e depósitos pressionados completam o quadro. Para o BBI, a normalização dos fundamentos bancários só deve aparecer de fato em 2027.
Onde o consenso aparece: energia e minerais
Se há divergência no timing macro, há convergência setorial. Ambos os bancos apontam para a “Corrente” estrutural: recursos naturais. O regime de incentivos (RIGI) já tem US$ 50 bilhões em projetos confirmados e mais de US$ 150 bilhões em análise.
- Petróleo e gás: Vaca Muerta segue como motor principal.
- Mineração: Cobre e lítio atraem capital de longo prazo.
- Agronegócio: Base histórica de geração de divisas.
Nomes preferidos também se aproximam. O Itaú BBA foca em óleo, gás e infraestrutura energética. O Bradesco BBI destaca Banco Macro (BMA) e Vista Energy (VIST), combinando valuation atrativo, balanços sólidos e exposição à normalização gradual.
O que observar daqui para frente
A assimetria de risco-retorno melhorou, mas o “gatilho” segue ausente. Para o investidor que olha além do ciclo eleitoral, a tese estrutural de energia e mineração oferece lastro. Para quem precisa de liquidez e recuperação cíclica no curto prazo, a paciência ainda é a melhor posição.
Monitore dois indicadores nos próximos trimestres: a aceleração real do crédito ao setor privado e a evolução dos spreads soberanos. Quando ambos alinharem, o desconto atual deixará de ser apenas um número na tela para virar performance na carteira.
