O comparecimento de eleitores acima de 60 anos despencou nos maiores colégios eleitorais do Sudeste, criando um vácuo que as duas principais campanhas presidenciais correm para preencher. O fenômeno não é marginal: em municípios com mais de 500 mil habitantes, a taxa de ausência desse grupo superou 22% no último pleito. A dúvida que fica é se o eleitor idoso apenas faltou — ou se rompeu com o processo.
Dados internos das duas frentes indicam que a abstenção não se distribuiu de forma aleatória. Concentrou-se em bairros de renda média e alta, onde o voto costuma ser ideologicamente definido. Isso transforma cada falta em um sinal de alerta: não se trata de logística, mas de descontentamento.
Onde o voto sumiu — e por que isso assusta os estrategistas
São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Campinas respondem juntas por quase 18 milhões de eleitores. Nelas, a queda de comparecimento entre idosos foi três vezes maior que a média nacional. Campanhas adversárias já mapearam 47 zonas eleitorais onde a diferença entre comparecimento em 2022 e 2024 ultrapassa 15 pontos percentuais.
- São Paulo (capital): -18,4% no comparecimento 60+
- Belo Horizonte: -16,7%
- Rio de Janeiro: -14,9%
- Campinas: -13,2%
O padrão se repete: quanto maior a renda média da zona, mais acentuada a queda. Estrategistas de ambos os lados leem o mesmo recado — o eleitor não compareceu porque não viu alternativa que o representasse.
O custo de reconquistar quem não foi
Trazer de volta um eleitor que escolheu ficar em casa custa, em média, sete vezes mais do que manter um votante fiel. As equipes de campo passaram a usar cruzamento de dados de saúde, transporte público e até consumo de medicamentos para identificar perfis de maior propensão ao retorno. A meta: recuperar pelo menos 60% dos ausentes até o primeiro turno.
Mas há um obstáculo estrutural. A legislação eleitoral proíbe transporte de eleitores no dia da votação, e a judicialização de caravanas organizadas por partidos aumentou 340% nos últimos dois ciclos. O caminho, portanto, é a persuasão prévia — e ela exige tempo que as campanhas não têm.
O fator Flávio Bolsonaro e a fragmentação da direita
Diferente de 2022, a direita chega rachada ao embate. Flávio Bolsonaro herda o capital eleitoral do pai, mas carrega o desgaste de investigações em curso e a ausência do pai nas ruas. Pesquisas qualitativas encomendadas pela própria campanha mostram que 41% dos eleitores idosos que votaram em Jair Bolsonaro em 2022 dizem “não confiar em nenhum candidato hoje”.
Esse vácuo de confiança explica parte da abstenção. O eleitor não migrou para Lula — apenas silenciosamente se retirou. Recuperá-lo exige não só proposta, mas validação de que o sistema ainda funciona para ele.
Lula e o desafio de manter a base sem o antipetismo como motor
Do lado petista, o cálculo é inverso. O presidente depende da máquina sindical, dos movimentos sociais e dos programas de transferência de renda para garantir comparecimento. Mas o eleitor idoso de baixa renda — historicamente fiel — também faltou mais em 2024. A inflação de alimentos, que atinge 9,2% no acumulado para idosos, aparece em grupos focais como a principal queixa.
A campanha testa discursos que conectem benefícios já concedidos (farmácia popular, isenção de IR para aposentados) a promessas de expansão. O risco: soar como prestação de contas, não como projeto de futuro.
O que observar nas próximas semanas
Três indicadores vão ditar o ritmo daqui para frente: a curva de emissão de segunda via do título de eleitor nas zonas de alta abstenção, o volume de pedidos de justificativa antecipada e a adesão a mutirões de biometria. Se esses números não subirem até meados de novembro, a eleição de 2026 será decidida não por quem vota — mas por quem continua em casa.
Para o empresário ou investidor que acompanha o cenário, a leitura é clara: a instabilidade do comparecimento idoso introduz uma variável de erro nas projeções de voto que nenhum modelo estatístico consegue capturar. Cenários de segundo turno pressupõem mobilização total. Se o eleitor mais fiel do país decidir que não vale a pena, todas as planilhas perdem validade.
