Uma investigação da Confederação Europeia da Indústria do Calçado (CEC) expôs falhas graves em produtos vendidos por Shein, Temu e AliExpress: 80% dos calçados de segurança analisados não cumprem a norma ISO europeia. O dado acende um alerta para importadores e plataformas justamente quando a União Europeia aperta o cerco sobre a responsabilidade legal desses marketplaces.
O raio-X da investigação: químicos e falhas mecânicas
Entre fevereiro e maio de 2026, a CEC realizou “compras misteriosas” em sete países, incluindo França, Alemanha e Espanha. Laboratórios credenciados testaram 76 pares e o resultado é um retrato preocupante da categoria de proteção individual:
- Risco químico: 36% das amostras violaram o regulamento REACH. Ftalatos (plastificantes) lideram as irregularidades, seguidos por formaldeído, metais pesados, níquel e cromo VI.
- Falha de proteção: 8 em cada 10 modelos de segurança apresentaram defeitos técnicos — resistência ao escorregamento insuficiente, proteção contra perfuração falha e biqueiras fora do padrão.
- Ausência de conformidade: Faltava a marcação CE obrigatória e a documentação técnica que comprova a segurança do produto.
Histórico de reincidência: não é um caso isolado
Os números da CEC apenas confirmam um padrão já documentado por outras autoridades nos últimos dois anos. A repetição dos achados reforça a hipótese de falha sistêmica no controle de qualidade da cadeia ultrarrápida:
- Coreia do Sul (2024): Sapato da Shein com ftalatos 229 vezes acima do limite; palmilhas da Temu com chumbo 11 vezes superior ao permitido.
- França (Alfândega): 25% dos itens não têxteis da Shein com falhas de segurança e rotulagem em amostra de 320 mil pacotes.
- Bélgica (Testachats): 70% dos 162 produtos testados (brinquedos, carregadores, acessórios) fora das normas europeias.
- Alemanha (Greenpeace, nov/2025 e mar/2026): PFAS (“químicos eternos”) e ftalatos acima do limite em peças de vestuário da Shein.
O cerco regulatório se fecha sobre as plataformas
O volume de encomendas de baixo valor explodiu: foram 5,9 bilhões de pacotes entrando na UE em 2025, alta de 28% em um ano. Esse tsunami logístico torna a fiscalização tradicional inviável, forçando Bruxelas a mudar a estratégia — mirando nas plataformas, não apenas nos produtos.
O marco mais recente ocorreu em maio de 2026, quando a Temu foi multada em 200 milhões de euros por violações do Regulamento dos Serviços Digitais (DSA). A punição cita avaliação inadequada de riscos ligados à circulação de produtos ilegais. A mensagem é clara: a isenção de responsabilidade pelo que é vendido por terceiros está com os dias contados.
O que observar daqui para frente
A CEC defende agora uma revisão profunda nos mecanismos de vigilância de mercado e regras explícitas de responsabilidade solidária entre plataformas, importadores e fabricantes. Para o empresário que importa ou revende, três movimentos práticos merecem monitoramento contínuo:
- Exigência de dossiês técnicos completos e marcação CE válida antes do embarque.
- Novas obrigações de “due diligence” para marketplaces sob o DSA e o futuro Regulamento de Segurança Geral de Produtos (GPSR).
- Risco de retenção alfandegária e recall obrigatório para lotes sem rastreabilidade de conformidade.
O cenário aponta para o fim da “zona cinzenta” onde o volume de vendas superava a capacidade de fiscalização. Quem opera na cadeia de suprimentos da moda rápida precisa internalizar o custo da conformidade — ou assumir o risco de sanções proporcionais ao faturamento global.
