Os programas de governo de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para o segundo turno de 2026 desenham dois Brasis opostos no tabuleiro global. A decisão nas urnas, marcada para 25 de outubro, redirecionará rotas comerciais, verbas de defesa e o controle de minerais estratégicos.
O diagnóstico da Agência Brasil expõe uma fratura profunda: enquanto um projeto aposta na multiplicação de parceiros no Sul Global, o outro prioriza a reparação de laços com Washington, Tel Aviv e Buenos Aires. Para o empresariado, a diferença não é ideológica — é de fluxo de caixa e risco regulatório.
Soberania: autonomia ou pragmatismo?
O documento petista dedica quase seis páginas à política externa e rejeita “alinhamentos automáticos”. A tese central é que a projeção internacional exige independência decisória, livre de subordinação a potências estrangeiras.
Já o plano do PL condena o que chama de “bravatas” diplomáticas. A proposta defende soberania exercida “na prática”, com foco na recuperação de relações deterioradas — especificamente com Argentina, Estados Unidos e Israel — sob a bandeira do profissionalismo e do interesse comercial imediato.
O tabuleiro geopolítico: BRICS versus eixo ocidental
Lula coloca o bloco dos BRICS e o G20 no centro da estratégia. A meta é diversificar mercados na África, Ásia e América Latina, transformando o continente sul-americano em “zona de paz” e ampliando a presença brasileira no Mercosul.
Flávio Bolsonaro não descarta China ou União Europeia, mas hierarquiza a agenda: a reaproximação com o eixo EUA-Israel-Argentina vem primeiro. O programa resume a doutrina em uma frase: a diplomacia deve servir ao “produtor e ao trabalhador brasileiro”, não a simpatias políticas.
Defesa nacional: R$ 20,4 bi em execução contra aposta em drones e IA
Para o atual governo, capacidade militar e política externa são faces da mesma moeda. Desde 2023, R$ 20,4 bilhões foram executados em modernização, com entregas concretas:
- Sete caças Gripen F-39 (um produzido no Brasil);
- Três cargueiros KC-390;
- Quatro fragatas em construção;
- 226 viaturas blindadas.
A oposição propõe redirecionar o foco para tecnologias disruptivas — drones, inteligência artificial e inovação dual —, condicionando o orçamento das Forças Armadas à “presença internacional” do país.
O jogo das terras raras: beneficiar aqui ou atrair capital lá fora?
Este é o ponto nevrálgico para investidores. O Brasil detém cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, insumo vital para chips, defesa e transição energética.
Lula propõe política industrial para beneficiamento nacional e agregação de valor, evitando a armadilha de exportador de matéria-prima. Flávio Bolsonaro, em evento conservador nos EUA em março, vendeu a imagem do Brasil como “solução americana” para quebrar a dependência chinesa, defendendo investimento estrangeiro com transferência de tecnologia.
Tarifas, Trump e OCDE: a variável oculta
Enquanto Lula critica tarifas unilaterais dos EUA e cobra autonomia na negociação, Flávio Bolsonaro sinaliza alinhamento ao ex-presidente Trump — chegando a apoiar publicamente sanções do tipo Magnitsky contra o próprio país. Em contrapartida, o programa do PL promete buscar saídas diplomáticas para barreiras comerciais e avançar na adesão à OCDE, clube de 38 economias desenvolvidas.
O que observar daqui para frente
O segundo turno funcionará como um referendo sobre o modelo de inserção do Brasil nas cadeias globais de valor. Acompanhe três variáveis decisivas nos primeiros 100 dias do próximo mandato: a nomeação para o Itamaraty e o Ministério da Defesa, o envio (ou não) do projeto de lei sobre terras raras ao Congresso, e o primeiro voto brasileiro em fóruns multilaterais sensíveis — como a OMC ou o Conselho de Segurança da ONU. São nesses gestos que o discurso de campanha vira contrato de risco para o capital.
