O Brasil saltou para o segundo lugar no ranking global de disposição para compras feitas por inteligência artificial: 72% dos consumidores já usam ou pretendem usar agentes autônomos nos próximos 12 meses. Em 2025, esse número era 39%. A rejeição total despencou de 27% para apenas 6%.
Os dados vêm da segunda edição da Pesquisa Internacional de IA Agêntica, conduzida em maio de 2026 com 8.027 pessoas em sete países. Só a China (86%) supera o Brasil. Mas há um “porém” que todo varejista precisa entender.
Por que o Brasil disparou na frente dos EUA e da Europa
Juan Pablo D’Antiochia, gerente-geral da Global Payments para a América Latina, admite surpresa. Mercados com legislações consumeristas mais rígidas — como o europeu — deveriam, em tese, adotar mais rápido. O que explica o fenômeno brasileiro é mais prosaico: falta de tempo.
“Nas grandes cidades, o consumidor passa o dia na rua, no trânsito, resolvendo mil coisas. Delegar a compra para um agente deixa de ser novidade e vira necessidade urgente”, resume o executivo.
O estudo revela ainda que a nota média de confiança dos brasileiros subiu de 3,18 para 3,80 (numa escala de 1 a 5). Ficamos atrás apenas dos chineses (3,97).
O que ainda trava a adesão total
Metade dos entrevistados cita segurança dos dados de pagamento como barreira principal. Privacidade e uso de dados pessoais aparecem em segundo (45%), seguidos do medo de escolhas erradas do agente (41%).
Para vencer o ceticismo, o mercado precisa entregar quatro garantias concretas:
- Confirmação prévia de cada compra — 41% exigem
- Alertas instantâneos de transação — mesma porcentagem
- Prova de imunidade a ataques cibernéticos — 34%
- Clareza sobre responsabilidade em caso de erro — 33%
D’Antiochia vê a desconfiança como etapa natural. “Redução de alucinações da IA e ajustes na legislação de consumo vão caminhar juntos para ampliar a adesão”, projeta.
Onde a automação chega primeiro — e quem controla a porta de entrada
A tendência é que produtos comoditizados — mesma marca, mesmo frete, mesma entrega — sejam os primeiros a sair do carrinho humano para o carrinho algorítmico. “Quando tudo é igual, ganha o mais barato ou o promotor mais amigável”, diz o executivo.
Mas a briga maior é outra: quem será a “loja-âncora” do shopping virtual. Grandes varejistas já criam seus próprios agentes para não depender de plataformas externas.
- Amazon bloqueou o agente Muse (Meta) e desenvolve ferramentas próprias
- Magazine Luiza lançou o “WhatsApp da Lu”, personal shopper conversacional
- Mercado Livre testa assistente de compras com busca aprimorada por IA
D’Antiochia compara: “Todo shopping quer ser a loja pela qual você entra obrigatoriamente. Mas, cedo ou tarde, terão de abrir as portas para agentes concorrentes.”
O que observar daqui para frente
Três movimentos definem o próximo ano: a corrida regulatória para definir responsabilidade civil em compras autônomas; a padronização de protocolos de segurança que satisfaçam os 50% que ainda temem fraude; e a disputa entre agentes proprietários (do varejo) e agentes universais (das big techs). Quem resolver a confiança — com confirmação prévia, alertas em tempo real e clareza de responsabilidade — captura o consumidor que já decidiu delegar, mas ainda hesita.
