No segundo turno de 2026, a agenda ambiental deixa de ser coadjuvante e vira divisor de águas entre os dois projetos de poder. De um lado, Lula (PT) classifica a crise climática como emergência central, com 38 menções no plano de governo. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL) cita “eventos climáticos extremos” uma única vez, apostando na floresta como ativo financeiro. A diferença não é apenas retórica: ela dita onde o dinheiro público será gasto e quais regras valerão para o agronegócio, a indústria e os territórios indígenas nos próximos quatro anos.
O diagnóstico que separa os dois mundos
O programa do PT estrutura toda a gestão — da infraestrutura à política externa — em torno da mitigação e adaptação. Isso significa obras resilientes, fundos climáticos robustos e metas internacionais vinculantes. Já a proposta do PL enxerga o meio ambiente como “ativo estratégico capaz de gerar oportunidades econômicas”. A aposta está no mercado regulado de carbono, bioeconomia e pagamento por serviços ambientais (PSA), sem detalhar como a adaptação climática sustentaria esses negócios a longo prazo.
Desmatamento: zero total ou zero ilegal?
A meta mais tangível revela a distância entre as chapas. Lula reafirma o desmatamento zero até 2030, com reestruturação dos planos de prevenção (PPCDAm/PPCerrado), manejo integrado do fogo e incentivo a RPPNs. Flávio propõe zerar apenas o desmatamento ilegal até 2029, focando em fiscalização, monitoramento e combate a crimes ambientais. A diferença abre margem para supressão legal de vegetação nativa, ponto sensível para o agronegócio e para a integridade dos biomas.
- Lula: Inclui Caatinga como ativo contra desertificação; fortalece Código Florestal e Lei da Mata Atlântica.
- Flávio: Propõe “eliminar superposições” entre Ibama, Funai e ICMBio (sem especificar quais); consolida CAR e amplia PSA ao produtor que preserva.
Infraestrutura e dinheiro: onde o recurso entra
Para enfrentar enchentes e secas, Lula prevê revitalização de bacias, drenagem urbana sustentável, infraestrutura verde e apoio a inovação em resíduos sólidos. O financiamento viria da ampliação de instrumentos como Fundo Amazônia, Fundo Nacional do Meio Ambiente e o novo Fundo Tropical Florestas para Sempre (TFFF). Flávio foca em engenharia pesada: barragens de usos múltiplos, reservatórios de controle de cheias, canais e fortalecimento da Defesa Civil. A aposta é na prevenção de desastres via hardware, não em gestão de ecossistemas.
Territórios e povos tradicionais: demarcação versus autonomia produtiva
O plano petista avança na destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas, integrando o SUAS à agenda climática para proteger famílias em áreas de risco. Inclui ainda urbanização de favelas no programa Periferia Viva. A chapa do PL oferece autonomia para povos indígenas e quilombolas decidirem atividades produtivas em suas terras, com indenização por restrições de usufruto e mecanismos de compensação. Não há menção a novas demarcações.
O que o retrovisor mostra: números que não mentem
O histórico serve como termômetro da execução. Nos governos PT, foram R$ 19,7 bilhões para fiscalização, 21 terras indígenas demarcadas, 231 unidades de conservação criadas e queda do desmatamento abaixo da média histórica. No governo Jair Bolsonaro (2019-2022), o repasse caiu para R$ 7,4 bilhões, nenhuma terra foi demarcada, fundos foram congelados, conselhos extintos e o desmatamento na Amazônia atingiu 45.612 km², com 20 mil garimpeiros na Terra Yanomami. A frase “passar a boiada”, dita por Ricardo Salles em 2020, resume a estratégia de flexibilização infralegal daquele período.
O que observar daqui para frente
Se Lula vencer, a expectativa é de continuidade do Plano Clima — com seus 8 planos de mitigação, 16 de adaptação e 5 estratégias transversais —, mas a pressão pela exploração de petróleo na Margem Equatorial (Foz do Amazonas) seguirá como teste de coerência. Se Flávio vencer, a implementação dependerá da regulamentação do mercado de carbono e da definição prática sobre as “superposições” de órgãos fiscalizadores. Para o setor produtivo, a leitura é direta: um caminho aposta em compliance climático e acesso a capital verde; o outro, em desburocratização e valorização da biodiversidade como commodity. O segundo turno decide qual risco o Brasil prefere correr.
