Economia

Brinquedos mais baratos, mas Dia das Crianças frustra lojistas: o que está por trás

Prateleira de brinquedos com etiquetas de desconto em loja vazia no Dia das Crianças
Brinquedos mais baratos não garantem vendas no Dia das Crianças 2024

Brinquedos, roupas e calçados infantis custam menos que no ano passado, mas o comércio não comemora. O Dia das Crianças, na próxima segunda-feira (12), deve registrar vendas fracas mesmo com preços em queda real — e a explicação vai muito além do bolso apertado.

Nos 12 meses até setembro, brinquedos e artigos esportivos recuaram 0,89%, enquanto a inflação geral (IPC-FGV) avançou 3,94%. Roupas infantis caíram 0,40% e calçados, 3,21%. Bicicletas ficaram 1,98% mais baratas; bonecas, 0,51%. Na prática, o poder de compra para presentes melhorou.

O freio invisível: dívida recorde e juros altos

O comprometimento médio da renda familiar com dívidas atingiu 29,6% em setembro, alta de 0,3 ponto percentual em um mês, segundo a Peic/CNC. Mesmo com mais gente empregada, juros elevados e endividamento forçam escolhas: paga-se o essencial, e o supérfluo espera.

Para Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP, a equação é simples: “Pode estar mais barato, mas a questão é a disponibilidade de renda. Tá todo mundo endividado.” O resultado é um tíquete médio menor — quem gastaria R$ 100 leva item de R$ 60 — e fluxo reduzido nas lojas físicas.

25 de Março: termômetro do varejo popular divide opiniões

Na principal rua de comércio popular de São Paulo, o cenário é misto. Gerentes relatam movimento “bem abaixo de anos anteriores” e fechamento de pontos. Um ambulante de bolhas de sabão, sem se identificar, resume: “O ano está muito fraco. Criança só quer eletrônico.”

João Cavalcante, gerente nas adjacências, confirma: “Ou compra um brinquedo ou paga as contas de casa.” A loja dele já mirou no Natal e no Halloween como datas fortes.

O contra-ataque: Pokémon, K-pop e colecionadores adultos

Nem todo o varejo sangra. Rita de Cássia, 19 anos na mesma região, projeta alta de 10% nas vendas. O segredo? Produtos originais de marcas fortes — especialmente cartas de Pokémon, itens de K-pop e a linha Sylvanian Families.

Uma coleção nova de Pokémon, chegada este mês, “impulsionou consideravelmente” o movimento. O público vai dos 6 anos até adultos que compram para colecionar ou revender. Júlio Ventura, 35, empresário, tirou duas cartas de pacotes de R$ 2.000 e revendeu por R$ 7.500. “A geração de 25 a 35 anos cresceu com isso e agora tem renda”, diz.

  • Cartas de Pokémon: lazer e investimento, público transgeracional
  • K-pop e Sylvanian Families: nichos com fãs fiéis e alta disposição a pagar
  • Originais vs. genéricos: pais e colecionadores preferem autênticos mesmo mais caros

Mudança de comportamento: telas, experiências e tributação

Marcelo Mouawad, da Univinco e ALBB, aponta três vetores estruturais. Primeiro, a data perdeu relevância cultural — compete com passeios, parques em shoppings e restaurantes com área kids. Segundo, o e-commerce tira o cliente da loja física na comparação de preço de item único. Terceiro, a isenção tributária para importados de até US$ 50 cria concorrência desigual: um item de US$ 1 na China chega a R$ 40 no varejo nacional após impostos, frete e distribuição, enquanto a importação direta sai por fração disso.

Edson Lima, gerente de artigos para festas na 25 de Março, corrobora: tributos e aluguéis pesam, e muitas lojas fecham as portas.

Pós-pandemia: volta ao físico como antídoto à tela

Há um contraponto inesperado. Rita observa que, depois da pandemia, pais voltaram a comprar brinquedos físicos preocupados com o excesso de tela dos filhos. “O colecionador sabe a diferença e a criança também. A diferença de valor é grande, mas ainda assim os pais compram o original.”

O próprio Júlio Ventura, que vive do mercado de cartas, deu ao filho de 11 anos “skins” (itens virtuais) para games, além de prometer passeio e um brinquedo físico. O consumo híbrido — digital e tangível — é a nova regra.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditarão o varejo infantil nos próximos trimestres: a trajetória do endividamento das famílias (se a Peic mostrar alívio, o tíquete médio reage); a regulamentação da taxação de importados de baixo valor (qualquer mudança altera a competitividade da 25 de Março); e a capacidade da indústria de criar “objetos de desejo” que tragam o consumidor de volta à loja — seja pela nostalgia dos adultos, seja pela preocupação dos pais com tempo de tela. O Dia das Crianças de 2024 já foi; o termômetro real vem no Natal.