Brinquedos, roupas e calçados infantis custam menos que no ano passado, mas o comércio não comemora. O Dia das Crianças, na próxima segunda-feira (12), deve registrar vendas fracas mesmo com preços em queda real — e a explicação vai muito além do bolso apertado.
Nos 12 meses até setembro, brinquedos e artigos esportivos recuaram 0,89%, enquanto a inflação geral (IPC-FGV) avançou 3,94%. Roupas infantis caíram 0,40% e calçados, 3,21%. Bicicletas ficaram 1,98% mais baratas; bonecas, 0,51%. Na prática, o poder de compra para presentes melhorou.
O freio invisível: dívida recorde e juros altos
O comprometimento médio da renda familiar com dívidas atingiu 29,6% em setembro, alta de 0,3 ponto percentual em um mês, segundo a Peic/CNC. Mesmo com mais gente empregada, juros elevados e endividamento forçam escolhas: paga-se o essencial, e o supérfluo espera.
Para Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP, a equação é simples: “Pode estar mais barato, mas a questão é a disponibilidade de renda. Tá todo mundo endividado.” O resultado é um tíquete médio menor — quem gastaria R$ 100 leva item de R$ 60 — e fluxo reduzido nas lojas físicas.
25 de Março: termômetro do varejo popular divide opiniões
Na principal rua de comércio popular de São Paulo, o cenário é misto. Gerentes relatam movimento “bem abaixo de anos anteriores” e fechamento de pontos. Um ambulante de bolhas de sabão, sem se identificar, resume: “O ano está muito fraco. Criança só quer eletrônico.”
João Cavalcante, gerente nas adjacências, confirma: “Ou compra um brinquedo ou paga as contas de casa.” A loja dele já mirou no Natal e no Halloween como datas fortes.
O contra-ataque: Pokémon, K-pop e colecionadores adultos
Nem todo o varejo sangra. Rita de Cássia, 19 anos na mesma região, projeta alta de 10% nas vendas. O segredo? Produtos originais de marcas fortes — especialmente cartas de Pokémon, itens de K-pop e a linha Sylvanian Families.
Uma coleção nova de Pokémon, chegada este mês, “impulsionou consideravelmente” o movimento. O público vai dos 6 anos até adultos que compram para colecionar ou revender. Júlio Ventura, 35, empresário, tirou duas cartas de pacotes de R$ 2.000 e revendeu por R$ 7.500. “A geração de 25 a 35 anos cresceu com isso e agora tem renda”, diz.
- Cartas de Pokémon: lazer e investimento, público transgeracional
- K-pop e Sylvanian Families: nichos com fãs fiéis e alta disposição a pagar
- Originais vs. genéricos: pais e colecionadores preferem autênticos mesmo mais caros
Mudança de comportamento: telas, experiências e tributação
Marcelo Mouawad, da Univinco e ALBB, aponta três vetores estruturais. Primeiro, a data perdeu relevância cultural — compete com passeios, parques em shoppings e restaurantes com área kids. Segundo, o e-commerce tira o cliente da loja física na comparação de preço de item único. Terceiro, a isenção tributária para importados de até US$ 50 cria concorrência desigual: um item de US$ 1 na China chega a R$ 40 no varejo nacional após impostos, frete e distribuição, enquanto a importação direta sai por fração disso.
Edson Lima, gerente de artigos para festas na 25 de Março, corrobora: tributos e aluguéis pesam, e muitas lojas fecham as portas.
Pós-pandemia: volta ao físico como antídoto à tela
Há um contraponto inesperado. Rita observa que, depois da pandemia, pais voltaram a comprar brinquedos físicos preocupados com o excesso de tela dos filhos. “O colecionador sabe a diferença e a criança também. A diferença de valor é grande, mas ainda assim os pais compram o original.”
O próprio Júlio Ventura, que vive do mercado de cartas, deu ao filho de 11 anos “skins” (itens virtuais) para games, além de prometer passeio e um brinquedo físico. O consumo híbrido — digital e tangível — é a nova regra.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o varejo infantil nos próximos trimestres: a trajetória do endividamento das famílias (se a Peic mostrar alívio, o tíquete médio reage); a regulamentação da taxação de importados de baixo valor (qualquer mudança altera a competitividade da 25 de Março); e a capacidade da indústria de criar “objetos de desejo” que tragam o consumidor de volta à loja — seja pela nostalgia dos adultos, seja pela preocupação dos pais com tempo de tela. O Dia das Crianças de 2024 já foi; o termômetro real vem no Natal.
